Gui Mendes

Vence por pontos e não por nocaute

O oceano dos medos infantis pelos olhos de um adulto

Neil Gaiman escreve sobre como o retorno às memórias da infância pode ser amargo. O regresso dos momentos felizes, do gosto de virar um geladinho do avesso, mas também das horas de medo, e do sofrimento de ser pequeno num mundo repleto de adultos.


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Neil Gaiman escreveu um conto para sua mulher, misturando suas recordações infantis com uma mitologia própria, que ele bem sabe desenvolver como ninguém. Esse conto cresceu, à medida que ia escrevendo-o, e se tornou O Oceano no Fim do Caminho. A obra surgiu das experiências vividas pelo próprio autor: o enredo se desenvolve em West Sussex , onde cresceu, o cenário é baseado na casa em que morou, o carro do pai do personagem foi roubado, como o do pai do autor, e o ladrão do automóvel, na vida real e no romance, cometeu suicídio. Só que na vida real, o pai vendera o carro na tarde do mesmo dia. Diferente do que acontece no romance...

A história começa com um funeral, e o protagonista retornando à sua cidade natal, após anos, para ir ao mesmo. Por um súbito impulso que, no primeiro momento, ele não consegue explicar o porquê, resolve passar pelas ruas onde explorara quando jovem. Até chegar numa antiga casa vizinha, no fim do caminho, das Hempstock(sobrenome conhecido no universo literário do próprio Gaiman), onde ele então mergulha, no oceano das suas antigas lembranças, que voltam a ele como uma breve chuva de verão.

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É então que, com um olhar de adulto, o protagonista começa a narrar as próprias experiências que viveu quando criança. Neil Gaiman magistralmente consegue te transportar para este novo mundo, transfigurando os medos do passado numa descrição sensível, romântica e, muitas vezes, aterrorizante.

Como o próprio diz, ainda no início do livro: "As memórias de infância às vezes são encobertas e obscurecidas pelo que vem depois, como brinquedos antigos esquecidos no fundo do armário abarrotado de um adulto, mas nunca se perdem por completo."

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A ligação com seu próprio passado é tão forte, que o próprio Gaiman em entrevista para o TOR explica: "Enquanto eu estava escrevendo, era como se eu estivesse mesmo lá. Houve uma cena onde nosso herói tinha que descer um cano, de escoamento, para escapar, e eu estava falando sobre isso com minha irmã, e ela disse, 'sabe, nós temos uma foto de você naquele cano...' E essa é a capa do fundo do livro agora!"

As questões contidas no livro são mais profundas do que imaginamos de início, mexendo com emoções que, geralmente, deixamos na infância. Um livro comovente, delicado e nostálgico... Em todos os sentidos dessa última palavra.


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