há algo de novo no front

Porque boas e más notícias fazem parte da guerra musical

WilliaN Correa

Willian Correa é formado em História e Jornalista da Rádio Mix FM Litoral em Bombinhas - SC. Além disso ele escreve sobre música desde 2008 e sempre acha um tempo pra falar de futebol.

Fracassos que viraram clássicos no mundo da música

Imagine que você está em uma banda e decide fazer algo totalmente diferente, ousado e experimental. Porém, ao quando seu trabalho chega as lojas fica encalhado ou vendo pouco, ninguém entende o porque de tanta mudança, a gravadora e mesmo a banda acaba por sofrer as pressões. Porém anos e as vezes décadas depois aquilo é compreendido e passa a fazer total sentido alcançando um público imenso, figurando entre as revistas especializadas em todas as listas de discos obrigatórios. Isso é o que aconteceu nos casos abordados nesse texto e em muitos outros casos. Convido o leitor a fazer uma viagem ao mundo de: The Clash, Ira!, Tim Maia, Ronnie Von e The Velvet Underground para que se compreenda que vale muito a pena arriscar e ousar, mas que o resultado venha muito tempos depois.


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Tempos atrás comecei a revisitar alguns discos do The Clash, banda que admiro muito porém tinha deixado um pouco de lado, o caminhão de clássicos de "London Calling" e "Combat Rock" inspiram qualquer um que ame música, entretanto, ao chegar no álbum "Sandinista" de 1980 e ouvi-lo com atenção, notei que o mesmo destoava totalmente da proposta punk da banda. Intrigado fui pesquisar e notei que o agora clássico álbum foi renegado outrora e ocasionou até mesmo a briga da banda com a sua gravadora. Por tanto, esse texto vai contar algumas histórias de discos que fracassaram no seu lançamento mas que depois se tornaram grandes clássicos, a começar por "Sandinista".

Quando The Clash estava finalizando a gravação do disco, a proposta não era nada simples, a ideia era ser um áçbum triplo contendo faixas que iam do Jazz, Reggae a música experimental e até mesmo uma faixa cantada pela namorada Mick Jones com fundo de violino a ótima "Lose the skin". Até aí tudo bem, experimentação era o que muitas bandas faziam no final dos anos 70, o que pegou foi que o Clash queria vender o LP triplo como preço de disco único, o que tornaria o preço acessível a todos. A gravadora aceitou com uma condição, lançaria o disco triplo, porém, a banda só iria receber quando o mesmo vendesse mais de 200 mil copias, devido ao seu tamanho e conteúdo o disco demorou muito pra ser digerido o que fez com que a banda recebesse alguma libra muito tempo depois. Hoje "Sandinista" é um CD duplo e quem tem o disco triplo tem uma verdadeira joia nas mãos, é um verdadeiro clássico recheado de hits como: "Charlie don't surf", "somebody get murder" (minha preferida) e "Up in heaven (no only here).

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No Brasil temos três casos clássicos, um deles é o do cantor Ronnie Von, apelidado de príncipe nos nos 60 o cantor mergulhou na psicodelia dos Beatles e lançou o conceitual "Ronnie Von " 1969 e "A Misteriosa Luta do Reino de Paras sempre Contra o Império de Nunca Mais" em 1969. "Maquina Voadora" em 1970, na época ninguém compreendeu porque um cantor romântico passou a falar de aviões, anarquia, história antiga, civilizações extintas e vida em outros planetas. Os três discos foram um fracasso total o que obrigou Ronnie a retornar a música romântica ou encerrar sua carreira de cantor já que nenhuma gravadora queria ele cantando aqueles temas. Mais de 35 anos depois os discos foram redescobertos viraram verdadeiros clássicos e até um documentário intitulado "Quando eramos príncipes".

Em 1975 outro caso chamou atenção de todo mundo, o popular Tim Maia, mergulhado em umas eita chamada "Cultura Racional" lançaria o disco duplo "Tim Maia racional" o álbum duplo muito influenciado por funk e soul falava em todas as faixas basicamente a mesma coisa a tal seita religiosa filosófica da "Cultura Racional", obviamente tudo muito bem arranjado porém destoando totalmente da carreira do cantor. Mais um fracasso de vendo da nossa lista, tempos depois do seu lançamento foi totalmente renegado por Tim Maia, ele, autor de todas as letras que faziam referência a seita se sentiu enganado e ordenou a retirada do álbum das prateleiras. Décadas depois o LP se tornou uma raridade estando entre dos discos mais caros do Brasil e disputado a tapa por colecionadores, "Tim Maia Racional" ocupa a 17º posição da revista Rolling Stone dos 100 maiores discos brasileiros de todos os tempos.

O terceiro caso vem do ano de 1988 (ano do nascimento do autor) o grupo paulistano Ira! já tinha muito nome no cenário nacional contando vários clássicos na sua carreira. Entretanto, influenciados pelo filme "O Bandido da Luz Vermelha" um excepcional filme alias dirigido pelo genial "Rogério Sganzela" de 1968 o grupo usou vários áudios do filme em suas faixas como em "Pegue essa arma" e "Rubro Zorro". A crítica recebeu muito bem devido a ousadia da banda (algo raro por aqui nos anos 80). O problema do álbum foi na canção "Receita para se fazer um herói" Scandurra na época de quartel havia ganho a letra que supostamente foi escrita por um tal de Esteves, na gravação do disco a banda decidiu incluir a música porém não conseguiram entrar em contato com o tal Esteves para fins de autorização (tanto que na contracapa está escrito nos créditos "Esteves cade você?" tempos depois o tal Esteves apareceu ameaçando entrar na justiça caso não recebesse sua parte. Pra pioras a situação uma leitora da finada revista BIZZ mandou uma carta dizendo ter encontrado semelhanças na letra com um um poema de um poeta luso chamado Reinaldo Ferreira, tanto que o poema se chama "Receita para se fazer um herói". Ou seja, Esteves era uma farsa e o grupo manteve contato com a viúva do poeta para evitar problemas, da mesma forma que o diretor Rogério Sganzela queria receber sua parte adiantada pela liberação do áudio das faixas citadas acima. Por fim o disco não teve uma vendagem muito expressiva fazendo com que só anos depois entravesse no hall de clássicos.

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Pra finalizar, existem vários outros discos que poderíamos abordar aqui, como qualquer um da fase Berlin de David Bowie por exemplo, entretanto nessa parte final vamos tratar do clássico dos clássicos, o disco da banana "The Velvet Underground and Nico" Lançado em 1967 o grupo apadrinhado pelo grande nome da pop art Andy Warhol trouxe a cantora alemã Nico para cantar temas até inéditos para aquele momento da história. Temas como sexo, sadomasoquismo, heroína, drogas e prostituição eram a tônica do álbum que apresentava em seus arranjos muitas vezes um instrumental sem sentido e que destoava de tudo que os Beatles e Stones estavam fazendo por exemplo. Seu lançamento foi um fracasso em muitos países o disco foi banido, devido aos temas controversos as músicas não tocavam nas rádios e além disso o atraso em mais de um ano em seu lançamento a pouca atenção da gravadora fizeram com que o projeto fosse um fracasso total fazendo com que o Lou Reed demitisse Andy Warhol e Nico. Décadas e Décadas depois, descobriu-se que o álbum estava muito a frente do nosso tempo e o disco passou a ser aclamando pela crítica e é considerado até hoje uma verdadeira obra prima que influenciou inúmeros músicos.

Muitas vezes deixamos passar despercebida uma música, um filme, um livro o que é normal. E notem que somente depois que viramos adultos passamos a dar valor aquilo tudo que não entendiamos quando eramos adolescentes. O mesmo acontece no mundo da música, as vezes é preciso muito, muito tempo até que se entenda a cabeça de um artista ou que aquilo faça sentido para toda uma geração ou sociedade.


WilliaN Correa

Willian Correa é formado em História e Jornalista da Rádio Mix FM Litoral em Bombinhas - SC. Além disso ele escreve sobre música desde 2008 e sempre acha um tempo pra falar de futebol..
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