Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

1984, O Vestido da Liberdade


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1984 é um longa dirigido por Michael Radford, baseado no livro homônimo, filmado em 1984 e conta a história de um trabalhador num país pós-guerra atômica sob um regime ultra-autoritário. Houve um ponto em particular que me chamou a atenção e vou tentar explicar algumas relações nele.

Num dado momento, após Winston já ter conhecido Julia e ambos já estarem se relacionando, ela pede à ele, antes de transarem, para virar de costas e esperar. Ele espera e, quando se vira, vê Julia com um vestido florido e rosto maquiado. A primeiro momento se concebe algum tipo de “expressão feminina”, ou de feminilidade, ou de agrado ao homem, mas eu creio que está longe disso tudo. Creio que este ato já não se inclui em nosso contexto histórico.

É necessário pontuar que nesta sociedade autoritária, o próprio sexo, a reprodução comum, o amor e o tesão são controlados – e proibidos – pelas autoridades, que tentam de todas as maneiras manter cada indivíduo dentro de suas funções econômicas – retirando do sujeito o seu papel político e social. Em suma, a sociabilidade está submissa aos objetivos econômicos e não há reconhecimento de nenhuma participação política voluntária. Não há poder nenhum à nenhum trabalhador. “Proletário é animal”.

Todo o poder é concentrado nas mãos dos manda-chuvas do partido, o que nos remete à URSS Stalinista e ao Fascismo em geral, não somente neste ponto, mas também no culto à personalidade e a vigia constante. O Grande Irmão é a figura do líder autoritário que sabe o que você faz e com certeza vai te punir, ao mesmo tempo que deve ser adorado, exatamente para não infligir a punição nas situações cotidianas. Quando se está sujeito à normas arbitrárias, não se sabe o que é certo e o que é errado, não se sabe o que é permitido fazer, logo, qualquer ação pode ser uma ação errada, qualquer ato pode ser uma afronta.

Este controle se estende até mesmo pela reformulação constante da história e manipulação dos fatos. Todos os dados negativos a respeito do governo são modificados, sempre que algum índice cai, a notícia é reformulada e o índice é noticiado com resultado inverso, como se estivesse realmente subindo. Entretanto, o mais significativo, creio ser a invenção de uma nova língua. A invenção da novilíngua (assim é chamada) é a separação de todo o passado escrito nas línguas passadas e conhecidas, para a re-escrita da história nesta nova (e, possivelmente, única) língua vigente. É uma estratégia perfeita, já que nesta sociedade ultra-controlada, livros não são permitidos, a leitura é funcional, tem que servir à um objetivo econômico ou para assimilação das informações passadas pelo Estado.

Quando a novilíngua fosse assimilada, não seria possível ler antigos livros de história e essa não seria mais uma preocupação de controle estatal. A nova história poderia ser escrita e teria credibilidade absoluta – seria a única.

A noção máxima dos indivíduos sobre a história é aquela que é passada pelos órgãos estatais, não há livros subversivos de livre circulação, não há nada. Desta forma, a única maneira de expressar dúvida não é apontando os erros e mostrando o que deveria ser, mas unicamente duvidado. Não acreditar na história é a única maneira de rejeitar a história vigente, mesmo não havendo conhecimento de nenhuma outra história.

Dentro desta perspectiva, qualquer traço de uma outra história, por exemplo, um vestido florido e batom, ou, até mesmo a noção de o que é maquiagem, é a libertação um passo a frente da dúvida. O fato de haver um vestido florido representa que houve uma história diferente, seja lá qual for ela. O vestido não significa nada em relação à feminilidade, ele é o sopro de liberdade em um espaço social onde o próprio sexo é proibido e, de qualquer forma, de qualquer jeito, ele é transgressão (e libertação). O amor é transgressão e é um ponto ainda mais interessante.

Julia diz amar Winston sem nunca ter conversado com ele. Eu creio que este é um parâmetro muito preciso para as formas de relação em 1984, o amor, a similitude e a completude, existem na própria quebra da frieza cotidiana das relações puramente de fins econômicos. Eles se amam na transgressão, e o amor também é uma transgressão, uma liberdade.

Eles não se amam por terem gostos parecidos, por admirarem um ao outro, etc e etc, eles se amam por que o amor é a única coisa que resta fora do cotidiano controlado, é a única expressão de individualidade realmente agressiva.

Vale dizer que Winston e Julia não são proletários, na acepção do filme pelo termo, eles são funcionários do Estado, porém fora do poder do partido, eles são a classe média instruída que consegue estudar a revolução das classes baixas, que sente os problemas e toma uma posição contra o poder vigente. Exatamente por suas funções ligadas diretamente ao Estado que eles precisam ser controlados a todo instante, sua mente precisa ser a de uma máquina, não podem se distrair pelos prazeres diversos e, necessariamente, precisam reproduzir a ideologia vigente à todos, inclusive aos proletários – os animais - que são sedados com drogas e sexo... Reduzidos à cães.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha .
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