Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

O Legado do Carnaval


carnaval-grecia.jpgO carnaval, em seu sentido histórico, era festa Grega de comemoração à colheita, uma troca de papéis, era quando o rico se tornava pobre e o pobre se tornava rico, o homem se tornava mulher e a mulher se tornava homem. Em meio as festividades nenhum ato poderia ser classificado como crime (toda lei era suspendida pelos dias do carnaval) e as relações sociais se refaziam sob o manto de uma nova moral (que justifica a suspensão da lei), libertária e igualitária. Passado o tempo do carnaval, as classes sociais voltavam a se tratar da maneira normal, com submissão dos pobres e escravos, e autoridade por parte dos senhores, assim como as relações entre os sexos voltava a ser a mesma, com a submissão da mulher ao lar e o poder masculino institucionalizado.

É óbvio que muito se mudou do carnaval em seu princípio histórico, porém, ele ainda é uma boa reflexão da própria sociedade. A leitura do carnaval “histórico” não deve ser de uma festa libertadora, mas sim, de um reflexo da própria sociedade e de seus fetiches (é necessário lembrar que o evento terminava com uma grande orgia, onde, como já disse, não havia distinção entre classes).

De início vem a questão da inversão dos papéis, onde, existindo a própria inversão, a subversão dos papeis vigentes, já há a prova de que a formulação normal dos papéis sociais é, de alguma forma, opressora àqueles que não estavam em posição de desfrutar todos os benefícios da sociedade, ou seja, àqueles que precisavam dedicar sua vida à manutenção do status quo, por exemplo, os escravos.

A suspensão da lei era também a suspensão da moral e a abertura para um nova moral, temporária, entretanto, libertadora. O fato dela permitir a relação de maneira igualitária entre as diferentes classes e sexos, denota a relação desigual já existente. A libertação só ocorre se há alguma prisão. E o fato de acontecer, como despedida da festa, uma grande orgia, também nos revela o aspecto político do próprio sexo. A despedida é a expressão simbólica desesperadora da manutenção dos novos valores morais, em decorrência do prazer proibido estabelecido entre as novas formas de se relacionar, ela é o prazer máximo que possa ser obtido.

No outro dia, as leis voltam, a moral volta e as relações voltam a ser como eram. Minha pergunta, este carnaval ainda existe? Eu diria que sim.

Ainda é possível ver uma inversão de papéis, como o negro pobre (historicamente oprimido) que é, neste evento, a autoridade do samba e o branco rico (historicamente opressor) vai para o andar de baixo da sociedade, precisa reverenciar o talento que não é dele e que é constantemente reproduzido com sendo natural do negro pobre.

A repulsa da classe-média e alta pelo carnaval como expressão social e artística, assim como sua apropriação como forma de puro hedonismo, é o sinal de que este “espaço” é destinado aos outros, estranho a “nós” (classes abastadas) e menos merecedores da real cultura que “nós” temos, mas é também a demonstração de que há algo de errado com tal perspectiva, oras, se há algo para se aproveitar – no caso, a suspensão de moral e o hedonismo permitido – então há algo que ainda está aprisionando o sujeito.

Portanto, assim como no início das festividades, na Grécia, com a inversão dos papéis já denunciando a total desigualdade social e a moral dura, atualmente ainda pode-se ver a sociedade sob a mediação do carnaval. Ainda é possível ver as desigualdades cotidianas com a visão da inversão do carnaval, sua repulsa e a naturalização das características para desempenhar um papel importante no carnaval (o exemplo clássico é a formulação de que mulatas tem “samba no pé” e brancos não tem esse dom natural), já comprovam as premissas da sociedade atual.

A naturalização das capacidades do negro pobre se divertir com as festas e ser “naturalmente” propício à essas festividades já reflete a própria condição não intelectualizada deste esteriótipo na sociedade. O negro pobre é feliz por não ter as crises existenciais do rico branco, tem samba no pé por sua condição natural inferior culturalmente. Naturaliza-se a cultura para reforçar as relações sociais vigentes. No fim, o caráter de modificação das relações só confirma e conserva a anterior, a vigente.

O carnaval brasileiro não é a melhor festa do mundo por sua beleza e felicidade, mas por trazer à tona nossas desigualdades sócio-politico-econômicas e nem nos fazer desconfiar disso. O carnaval é a vitrine daquilo que deve ser observado e, desde sempre, modificado.


Vinicius Siqueira

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