Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Vagabundos Iluminados, Como Kerouac Expressa a Própria Hipocrisia do Flexível

Em Os Vagabundos Iluminados, Raymond Smith narra sua trajetória durante pouco mais de um ano pelos EUA juntamente com seus amigos poetas e/ou zen-budistas. Neste caminho ele reflete sobre o budismo, sobre sua vida, sobre a vida que queria ter, sobre tudo.


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Um ponto do livro me deixou curioso, os parágrafos sobre Rosie, namorada do velho amigo de Ray, Cody, e sua paranoia com a polícia – culminando em seu suicídio.

Ray vai visitar Rosie e Cody, antes de mais uma escalada em montanhas, mas, chegando na casa em que estavam, percebe que Rosie não está bem, que está com uma aparência péssima, que “de repente tinha ficado magra e esquelética e os olhos dela estavam enormes de terror e saltavam para fora do rosto”. Cody o leva para outra sala e conta que “Ela disse que escreveu uma lista com todos os nossos nomes e todos os nossos pecados, e daí tentou jogar na privada e dar a descarga no lugar onde trabalha, e a lista comprida de papel entalou na privada e precisaram chamar um fulano qualquer especializado em encanamento para resolver a confusão e ela diz que ele usava uniforme e era um guarda e levou a lista para a delegacia e nós todos vamos ser presos.”, depois o acalmando com um “Ela está louca, só isso”.

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Automaticamente, Cody aproveita a visita de Ray e pede para cuidar dela enquanto vai trabalhar naquela noite. Ray nega a ajuda de início, mas se sente moralmente responsável, sente que deve ficar para ajudar Rosie, por levar em consideração a própria amizade com Cody. E ele realmente fica, e conversa com Rosie, para, assim, descobrir o que se passa com ela. Rosie tenta avisá-lo das consequências de tal besteira, afinal, o policial poderá prender a todos com uma prova da própria “transgressora”... Ela deu o material de condenação, o que me faz perguntar, por que ela fez isso? A maneira como Rosie tenta se livrar dos pecados marcados em seu eu só me indica uma coisa, ela não aguentava tal fardo e não reconhecia ninguém como apto a dividir ou aliviar seu sofrimento, sua angústia. A falta da ajuda subjetiva a levou à uma ajuda objetiva – a certeza da expulsão dos maus-agouros por meio de um ritual.

Entretanto, sua listinha de pecados voltou. Sua maneira de se livrar de seus erros voltou e reafirmou tais erros, digo, não foi somente um entupimento de privada, simbolicamente aquilo foi a marcação à ferro dos pecados na alma de Rosie. O sujeito que tentou se livrar do erros não o conseguiu por eles estarem marcados em sua própria esfera de convivência, em suas expressões, no seu eu e este esclarecimento é tão horripilante que a ação pós-fracasso de Rosie foi tentar se matar, entretanto, “Tentou cortar os pulsos com uma faca velha sem fio”.

Ela não queria verdadeiramente se matar, mas sim, indicar a gravidade da situação ao envolvidos, primeiramente. Seu objetivo é salvar a todos de uma “grande revolução policial”, de início.

Ray leva a conversa com Rosie na brincadeira, à princípio, e somente depois percebe a real gravidade da situação. Ele só entende o que está acontecendo quando conclui que, para ela, tudo isso é uma certeza. Uma verdade. Que é tão verdade quando o Darma é para ele e aqui vem o ponto interessante desta passagem do livro, Ray se vê na mesma posição daqueles que o rejeitam quando tenta explicar o próprio Darma. Vale dizer que aqueles que o rejeitavam se sobressaíam pela crença firme e certa, por não dar margem de acerto à Ray - “eles é que sabiam o que era certo, eu não sabia nada, era só um rapaz idiota e um tolo inútil que não entendia o significado tão sério deste mundo tão importante e tão real”.

O budista out se torna o intolerante-arrogante cidadão-médio que “sabe das coisas”. Ele ignora as paranoias de Rosie da mesma maneira superior com que ignoravam sua verdade e seu projeto de vida. É óbvio que aqui eu não defendo a visão de que há muitas verdades e de que ninguém está realmente certo, que todos tem sua verdade e é essa verdade que realmente vale alguma coisa ou que cada expressão social é uma expressão idiossincrática... O que me faz chegar até essa questão é a inversão do falso e verdadeiro, de repente, Ray está numa posição onde é totalmente legítimo se perguntar: e se quem está delirando sou eu/Se eu também estou delirando?

Durante o resto das conversas ele tenta, de maneira sutil, convencê-la de que tudo é o vazio, de que “esta vida toda não passa de um sonho”, da mesma forma com que tentavam convencê-lo do contrário, com a mesma certeza que tentavam convencê-lo a ter um emprego médio e uma vida média. O ápice da insegurança em relação à própria cosmovisão e a dúvida de sua veracidade é a falta de paciência com a certeza inflexível de Rosie.

A morte dela foi como uma benção para Ray, foi somente com a morte que ele pôde reafirmar seus conceitos budistas sobre a situação de Rosie sem ser contrariado, foi exatamente a morte de Rosie que, cinicamente, acalmou os ânimos de Ray e o re-equilibrou, lhe devolvendo a certeza de seu projeto de vida.


Vinicius Siqueira

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