
Clara Crocodilo, disco de 1980, foi o início da trajetória de Arrigo Barnabé, músico do Paraná que fez seu nome participando da Vanguarda Paulista, junto com outros grupos e artistas, como Itamar Assumpção e a banda Premeditando o Breque.
Para falar de Arrigo Barnabé é necessário ter em consciência que sua música não era o que hoje nós chamados de inovadora. A inovação de Arrigo é muito diferente do que seriam as inovações e genialidades dos músicos do Rock ou do Pop, pois Arrigo não fez algo novo dentro da música ocidental, simplesmente, mas ele trouxe o núcleo da música atonal para a música popular. Ele não inovou, ele revolucionou.
O disco Clara Crocodilo, que teve duas canções tocadas no Primeiro Festival de Música Popular da USP, em 1979, é composto por serialismos que nunca haviam sido usados e abusos da forma como Arrigo abusou. A dodecafonia, técnica onde o música compõe utilizando séries de doze notas sem repetir nenhuma delas, ou seja, sem dar a característica tonal para música (coisa que é essencial para a maioria da música popular ocidental) foi explorada num território diferente: na música popular. Talvez a expressão certa para definir o estilo de sua música neste disco seja Popular Sinfônico.
Isso sem contar o tema de suas músicas, sempre abordando a crueldade e a frieza das metrópoles, o sangue e a escuridão das alamedas mal-iluminadas, o ambiente urbano mais perverso e negro que alguém poderia imaginar, tendo como referência de composição musical as histórias em quadrinhos! Isso mesmo, histórias em quadrinhos! Sua influência declarada está na linguagem impressa!

O que Arrigo fez só pode ser entendido com a acepção de todo o contexto da música mainstream e da música em geral no ocidente: Aquilo que é escutado, que é valorizado, está imerso em escalas e harmonias consonantes, perfeitamente harmônicas. A música de Arrigo chuta estes conceitos e os coloca como estilos já ultrapassados de composição. A dissonância se faz legítima; não como um erro da consonância, como em Sonic Youth, mas como um caminho perfeitamente trilhado e objetivo.
No Festival da USP, a reação do público foi aquilo que Caudwell chama de Atitude Afetiva. A música de Arrigo trouxe uma quebra na linguagem, mostrou onde ela não conseguiu adentrar e, por consequência, onde ela não conseguiu significar de maneira completa e detalhada. A reação foi um misto de vaias e aplausos, onde, após escutar o som que quebrou a “ordem musical vigente”, imediatamente, os trajes sociais tentaram identificar aquele som estranho e o introduziram significação. É óbvio que nunca a significação seria auto-destrutiva, mas sim, auto-protetora, já que a introdução dos significados por meio dos trajes sociais, ou seja, daquilo que é fácil de capturar em nosso sistema simbólico jogou a música de Arrigo num campo onde somente a rejeição ou a adoração narcísica (eu gosto disso por que gostar disso me faz ser legal) seriam legítimos.
Abaixo um vídeo com a reação do público no Festival da USP e a música Infortúnio:
Agora a faixa-título:
Comentários
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André HP
Ta escrito "Atamar Assumpção", seria Itamar, certo? Mas só um detalhe bobo perto do agrada-belíssimo artigo. Arrigo não foi e nunca vai ser digerido muito bem.
Fiz um pequeno textinho sobre este disco em 2010 que pode ser lido no link a seguir se me permitem compartilhar: http://anarcofagia.com/sss/2010/12/genialidade-01-clara-crocodilo/
Abração!
Tem razão, não havia visto o erro.
Arrigo é massa e, novamente, tem razão, nunca será bem digerido.
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