Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Tentando Explicar Los Hermanos e Anna Júlia


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Neste artigo eu vou tentar, em poucas palavras, dar uma visão um pouco diferente do senso comum musical sobre a relação da música Anna Júlia e o grupo Los Hermanos. Para isso, vou me utilizar de alguns conceitos da sociologia e de alguns fatos históricos brasileiros, mas prometo não me estender sem necessidade.

Basicamente, Anna Júlia foi o primeiro grande Hit – talvez o único nestas proporções – do grupo carioca Los Hermanos. Foi o Hit de estreia, mas que não caracterizou o estilo da banda. O grupo mudou drasticamente em relação à esta música e sendo um pouco mais geral, mudou muito em relação ao primeiro disco inteiro.

Para inteirarmos: o primeiro disco do Los Hermanos, disco homônimo, era recheado por músicas Ska Hardcore e tinha duas intrusas: Primavera e Anna Júlia. As duas músicas “obrigatórias”, duas músicas comerciais que, por serem extremamente comerciais, davam o direito da banda inserir o restante das músicas claramente não-comerciais. Uma troca da Abril Musica com os rapazes, sendo possível lançar o disco desde que haja alguma música radiofônica. Este é o contexto específico do primeiro álbum.

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Pierre Bourdieu, sociólogo francês, em seu livro A Distinção: Crítica Social do Julgamento, analisou que o gosto artístico (sabe, aquilo que todo mundo diz ser “subjetivo”) é estruturado de maneira que a apreciação pela forma é considerada um gostar legítimo, um gosto pela reflexão (a arte pela arte, o saber artístico como um fim em si) e a apreciação como função seria o gostar ilegítimo, gosto dos sentidos (tudo pautado socialmente). O que isso quer dizer? Isto, basicamente, significa que o verdadeiro apreciador da arte não é aquele que traça função entre arte e realidade, mas, pelo contrário, aquele que não traça nada, aquele que delimita os objetivos da arte na própria arte, culminando no seu máximo: a arte pela arte. Isto, obviamente, não é um absoluto (pois não é algo da “natureza da arte”), mas é uma forma estruturada da arte na sociedade, que nos remete à uma dominação de grupo por meio de um saber supostamente autêntico sobre um grupo que ainda não se desvencilhou de um saber funcional (uma clara oposição de uma elite intelectual contra a ralé racionalista, ou melhor, da Aristocracia contra a Burguesia em ascensão – Vide as reações dos comentaristas no post sobre Paulo Coelho, aqui no Obvious).

Além disso, temos que levar em conta o que muito historiadores levam em consideração no Brasil: nunca tivemos uma revolução violenta de classe-média, nunca realizamos um corte profundo deixando a aristocracia no passado.

Agora voltando ao foco, a banda sempre foi reconhecida por renegar Anna Júlia, coisa que os integrantes nunca falaram abertamente, na verdade, muito pelo contrário, vide a reportagem abaixo. Anna Júlia só é uma música antiga que não precisa mais ser tocada por haver repertório mais novo. Mas por que a banda foi reconhecida desta forma? Eu creio que isso está ligado ao elitismo intelectual que a própria MPB carrega em seu bojo.

Suas composições ultra complicadas, claramente destinadas à apreciadores de uma verdadeira arte brasileira e refinada, sincronizadas com letras detalhistas e bem estruturadas são uma separação do legítimo contra o ilegítimo (o sertanejo, por exemplo). E isso não se vê na realidade, pois, na verdade, isso é um estereótipo da MPB – muito difundido e nada questionado. Logo, a música Pop do início da carreira, que não se relaciona com as novas músicas e com a nova imagem construída pela indústria cultural da banda, é colocada em oposição às novas composições e, ao ser incluída neste grupo de músicas “descartáveis”, se opondo às músicas atuais, “refinadas”, também faz a banda parecer assumir uma postura de renegação. Como se não fosse um movimento natural mudar, como se a mudança do estilo da banda fosse algo milimetricamente pensado.

Mas essa postura aristocrática em relação à nova estrutura da banda, mais MPB, supostamente mais refinada, não é somente uma imposição dos meios de comunicação, mas também um desejo dos próprios fãs – o que isso quer dizer? Que não é surpresa ver jovens desejando consumir o gosto “legítimo” da música – a arte pela arte – e rejeitarem os representantes da arte funcional, como Michel Teló e Luan Santana, como se música para entretenimento não fosse música legítima, não fosse arte. É claro que meu objetivo não é discutir o que é arte dentro de termos filosóficos, mas sim de situar socialmente a arte que, em Bourdieu, não passa daquilo que, numa determinada sociedade e numa determinada época é considerado, quase que arbitrariamente, como arte. É a autoridade do discurso que faz da arte uma arte, não seu conteúdo específico (desta forma, não há arte absoluta, arte “verdadeira” atemporal e etc).

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Sobre a questão de qualificar a banda como arte refinada e pedestalizada, se trata sempre de uma via de mão dupla, o estereótipo social e a vontade individual de participar de um grupo legítimo, aristocrata, que considerada a arte como um fim em si, que consegue ver a arte verdadeira, neutra e pura. O próprio Amarante já legitimou a oposição da arte pura X arte impura, ao ser comparado ao Latino, em entrevista com Bruno de Lucca - que não encontrei na rede-, e responder que não faz música para “pegar” (com refrões chiclete e etc), mas “dá” músicas para quem quer escutar, dá de coração, ou até mesmo na entrevista acima, quando diz que fazem a música com “coração”, ou seja, a concepção e apreciação da música são projetadas como forma, não como função. Estas estruturas que fazem a oposição forma X função são inconscientes e introjetadas em todo o processo de socialização (inserção na sociedade e cultura) do indivíduo.

É desta forma, eu penso, que se localiza o conflito entre Anna júlia e o restante das músicas do LH: um conflito pautado em uma ilegitimidade da música perante o restante do repertório da banda e, por consequência, da imagem de “negação do passado Pop”, de um passado não-refinado e não-intelectualizado. Uma tentativa de retirar o aspecto artístico da banda, uma tentativa de não a colocar dentro da categoria de arte pura por já ter passado pela categoria de arte “do povo”, impura. E, desta forma, a oposição se reproduz infinitamente, não por culpa da banda, da mídia ou dos fãs, mas por ser uma característica da própria sociedade que gerou a música, a banda, a mídia e os fãs. Abaixo, a música para vossa fruição pura ou impura, tanto faz.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha .
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