Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Sintetizando Los Hermanos

É possível traçar uma linha do tempo e analisar a trajetória da banda Los Hermanos? Não. Não há uma continuidade pra ser analisada, mas há músicas e discos dispersos que precisam ser vistos dentro do lugar de onde saíram.


A pergunta que bate na cabeça é: O que é Los Hermanos?

Pode-se achar que é uma pergunta sem importância. Pra que saber disso? Que diferença faz? Bom, se levarmos em consideração que esta banda conseguiu ir pro topo do pop meteoricamente e, ao mesmo tempo, conseguiu sair do topo e ir pro limbo logo no segundo disco, então, como que num renascimento fantástico, retornou para o topo, mas para um topo diferente, um topo recheado mais de prestígio do que de dinheiro, então acredito que é necessário tentar dar algum pitaco sobre o assunto.

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Há várias coisas que nos fazem pensar numa unidade. Seria A Banda uma unidade? Sei lá, vejamos... Dá pra dizer que Los Hermanos é um só do início ao fim? Eu acredito que não. A trajetória demonstra isso de maneira rude e crua.

Então a gente precisa começar já tendo noção de que não há uma unidade, mas que há descontinuidades sob um mesmo nome. Há uma série de discos, não uma obra contínua.

Em outro texto eu já havia esboçado alguma coisa sobre a reviravolta da banda de estar em um cenário pop para ir diretamente a um cenário cult. Algo como uma reviravolta de mercado. A banda sai do mercado puramente econômico e se estabelece referencialmente em um mercado simbólico, um mercado que é mais voltado para o prestígio, para o valor cultural. Entra em um campo mais artístico do que comercial. Isso é vantagem? Eu acredito que não. É só estratégia.

Todo mundo sabe que a "arte de verdade" é aquela arte feita para si mesma (a arte pela arte), é aquela abençoada pelos críticos "refinados" e é aquela patrocinada por uma falsa aristocracia de costumes. Ou seja, a arte de verdade é aquela que alguns grupos com poder para tal façanha dizem ser a arte de verdade e conseguem exercer poder para obrigar que as instituições reconheçam essa arte verdadeira.

É óbvio, também, que Los Hermanos se encontra em uma posição diferente: é uma banda com características populares e características eruditas. É o que a gente chama de Blefe. É o erudito que, no fundo, ainda tem a estrutura da indústria cultural: músicas curtas, instrumentos comuns, harmonia consonante e etc e etc. Los Hermanos é o tipo de banda que quem não "manja nada" nem liga e quem "manja muito" sabe que é só enganação. É um blefe que só quem participa, só aquele núcleo de fans que sempre foi característico para a "fase erudita" da banda, acredita e leva à sério.

Então a gente pode ver algumas diferenças entre algumas músicas mais ou menos simbólicas de cada disco, como Anna Júlia, Cadê Teu Suín-?, O Vencedor e Morena.

Anna Júlia (o vídeo acima tem ela disponível) foi a ascensão pop que não deveria estar lá. É a música que um produtor pop quase obrigou a banda a colocar no disco.

Cadê Teu Suín-? (também acima) é a entrada pra algo que costumam chamar de experimental (mas que, no fundo, só é experimental pro pop rock sem graça que veio após o Punk).

O Vencedor (acima...) é uma trama mais ou menos brasileira. É uma música mais ou menos da terra. É uma afirmação do novo espaço que a banda está se firmando.

Morena (abaixo!) é chutar o balde. É ali que a MPB, que a música "culta", que a arte "legítima", "correta", se inscreve na história da banda.

A trajetória da banda, então, foi produto de um erro (ter deixado que um tal Bonadio inserisse uma tal de Anna Júlia) e de um recomeço que, na verdade, tinha já uma base de marketing enorme do primeiro disco "fraco". É, talvez, a trajetória "fácil". Você caminha até o pico, pula e, depois, tenta subir uma montanha menorzinha, mas que é exclusiva, já com a fama de ter subido aquela maiorzona anterior.

Então, eu acredito, não há ai uma linha contínua de um trabalho extenso e bem planejado, mas sim, há o fruto de diversas circunstâncias: eu duvido que seria a mesma coisa se a banda não tivesse ganhado a grana do primeiro disco.

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Da mesma forma, se uma classe-média cult foi fisgada pelo segundo disco, o terceiro veio com confiança e com aquela boa sensação de poder. Convenhamos, na arte, é considerado muito mais o prestígio do setor cultural do que o do setor econômico. É importante lembrar que os integrantes da banda saíram da PUC, uma faculdade bem cara e bem elitizada, ao mesmo tempo bem cultural, no sentido elitista da coisa.

Então, ao longo da trajetória, a possibilidade de fazer música da elite e para a elite (ou para uma camada média, ou seja, fazer um blefe, como eu já disse acima)só existiu, também, pela origem social dos membros. Pela formação mais fundamental, pela vida dentro da música popular. Mas isso não é suficiente. É necessário haver alguma "vantagem" nisso. A vantagem está no poder que produzir a verdadeira arte promove (e pressupõe).

Los Hermanos, nesse sentido, é quase como Emerson, Lake and Palmer na Inglaterra. É um blefe, é um meio termo que não sai do meio. Que não cutuca o que é legítimo e que não tem importância para quem nem liga para o que é legítimo. É a tentativa de dizer que alguém não tão "preparado" também pode "sentir" a arte verdadeira. Sentir a emoção, a sublimação. Eu acredito que justamente essa coisa da arte enquanto sublimação que deve ser combatida, não um ou outro objeto da arte.

Los Hermanos, eu acredito, é produto de uma coisa que a gente chama de Boa Vontade Cultural. É a tentativa de entender a arte verdadeira, mesmo quando não se entende realmente o seu funcionamento. Ou seja, é dizer "Nossa, muito bonito, embora eu não consiga explicar muito bem o que é".


Vinicius Siqueira

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