Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Jorge, o sujeito em liquidez n'O Bandido da Luz Vermelha

Quem é Jorge? É possível saber? Com certeza não, mas temo que é possível delinear um pouco de sua localização n'O Bandido da Luz Vermelha.


Em O Bandido da Luz Vermelha, Jorge é um criminoso distinto, rodeado por crises existenciais, sem saber o que fazer da vida, tendo certeza de sua pequenez no mundo e, ao mesmo tempo, tentando realizar algo que o faça ser alguém. É o bandido que começa a ser aclamado pelos jornais da época, que começa a ser uma celebridade.

De fato, ele é um ferrado. Um lindo bandido ferrado. Suas crises existenciais e suas incerteza em relação ao mundo, além da certeza de não ser “ninguém” o fazem ter a possibilidade de fazer de tudo. Ele pode fazer o que quer porque não tem nada a perder.

Não é inseguro em relação ao mundo. Ele já tem certeza. Ele já sabe que não é necessário ser inseguro, pois já não tem nenhuma esperança. Seus amores são gozos imediatos e, por mais que não se preocupe, que não sinta na pele a incerteza contemporânea do amor, a contemporaneidade o obriga a percebê-la. Sua parceira o trai e ele a mata.

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Talvez Jorge ainda seja daqueles pequenos príncipes que não têm preocupação por saber que, no fim, pode cortar todo o mal pela raiz. Ainda é possível acreditar que cortar o mal pela raiz tenha sido o resultado de anos de socos e pontapés em seu ego. Segundo Maquiavel, é melhor que um príncipe faça suas barbaridades de uma só vez, após acumular tudo, do que de pouco em pouco. Quando se corta a cabeça de várias pessoas de uma só vez, além de haver um impacto maior, causar mais medo e demonstrar mais força para o povo, evita que aconteça uma revolução, uma acumulação em migalhas dos descontentamentos, que poderia acontecer com pequenas barbaridades feitas ao longo do tempo.

Jorge faz tudo de uma vez. É um príncipe pós-moderno. Um ferrado, um inútil, um lixo, um sujeito descartável com uma vida descartável. Jorge não tem casa, não tem sede, não se fixa. Jorge só tem um carro. Um carrão. Sua única fixidez é num objeto de puro luxo.

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Produção do lixo

Bauman revela que a nossa sociedade é uma sociedade do lixo. Não se trata simplesmente de ser uma sociedade de consumo, mas de uma sociedade que faz do consumo um imperativo e, para isso, produz muito lixo. Essa produção de lixo é necessária, é ela que permite o consumo em excesso, pois é ela que dá legitimação para isso. Jogar fora é legítimo, consumir é necessário.

Não se trata de um consumo qualquer, mas do consumo compulsório e desregrado. Se trata das dívidas infindáveis no cartão de crédito. Se trata de TER um cartão de crédito. Há um tempo (pouco tempo), aquele que gastasse demais seria considerado um louco. O louco não era o doente mental, mas era o desatinado, era aquele que, tendo ou não um certo desvio em sua racionalidade, tinha com certeza um certo desvio moral. Ele não atendia ao programa da sociedade para sua função social. Era o rico gastão, o marido desinteressado, a esposa rebelde. Ser internado, pelo menos na Europa, não era coisa distante da vida cotidiana.

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O que isso quer dizer? Há poucas décadas, um consumidor atual seria um insensato e, há poucos séculos, seria um louco. Este louco, hiperconsumidor, hiperindividualista e um produtor desregrado de lixo, é o nosso consumidor padrão. Ele é aquilo que é construído meticulosamente e lentamente pelas grandes marcas, que o constituem para ser seu “fanboy”. É um momento histórico que permite essa constituição do sujeito.

Lixo imaterial

Jorge, portanto, deslocalizado, matador, minucioso e exibido não é um produtor de lixo, não sei se pode ser enquadrado como um sujeito pós-moderno aos moldes de Bauman e Lipovetsky, não sei se é constituído pelo cosmo retratado pelos autores, mas é um sujeito de relações líquidas, de produção de lixo, talvez, imaterial.

Um louco que tem relações absorvidas ao máximo e, depois, as termina com a morte. Ele mata a mulher após comer um omelete – há prova maior deste consumo desregrado e desatinado? Jorge descarta aquilo que não serve de maneira autoritária, não liga para a alteridade, liga para sua satisfação. Jorge pode ser um rascunho nosso. Um rascunho de nossa época, mas com traços bem constituídos do conservador de posição única, do tipo que “não volta atrás” - o forte e viril líder da tribo.

Lixo humano e vagabundos

Além disso, Jorge também faz parte do lixo humano. Daqueles que não foram incluídos na ordem e que precisam ser jogados para escanteio. Jorge é aquilo que a sociedade não deseja e elimina objetivamente por meio das exigências surreais na esfera econômica e por meio das constantes exclusões na esfera simbólica. Jorge é o subempregado criminoso. O estigmatizado. Ele é aquilo que não se quer e que não se pode matar, afinal, uma sociedade democrática não mata gente, mas a descaracteriza a ponto de, em um dado momento, poder interná-la ou encarcerá-la. Jorge será morto, de uma forma ou de outra, mesmo que seja se matando.

Bauman nos indica uma oposição básica da pós-modernidade, uma oposição que liga dois tipos de sujeito que foram constituídos na sociedade de consumo: aqueles que podem, de fato, consumir e utilizar das ferramentas da época e aqueles que só admiram estes. Os ricos e os pobres "informatizados", que são inscritos na lógica do consumo mesmo sem ter a menor possibilidade de participar dela como um agente hiperconsumidor. São os trabalhadores que juntam todo seu dinheiro para uma viagem de fim de ano, que naõ querem ficar onde estão, que não se sentem bem em seus lares, que querer fugir inconsequentemente de sua fixidez. São os ditos "vagabundo". Jorge é um eterno vagabundo. Deseja consumir, mas que não tem possibilidade prática desta façanha. Nunca é, sempre está.


Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha .
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