Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Tristeza, doce tristeza

A tristeza conquista e se revela como a maior companheira do triste. Resta saber se somos de fato tristes.


Por incrível que pareça, a tristeza é um sentimento que conquista. É terrível, pois tem seus picos em que a única ordem é a morte, seja ela física ou mental. Parece que devemos morrer, devemos desaparecer. Contudo, existe algo de interessante e de pegajoso na tristeza. Ela nunca tem gosto amargo, mas tem um sabor muuuito doce.

A tristeza se instala de uma maneira que não conseguimos sair dela sem algum desgosto. É como se o objeto de nossa tristeza estivesse instalado dentro da gente, é como se a gente não conseguisse mais gostar de nada. O objeto morre e a gente morre junto, de pouco em pouco. Segundo Freud é uma identificação total com o objeto de amor perdido que causa a melancolia.

Viver a Vida, de Godard. Talvez uma grande sina da tristeza.

Amamos nossa tristeza por que ela é direcionada para o ego. Perdemos nossa autoestima por que nosso ego era totalmente identificado com o objeto de amor, que ao ser perdido, também levou o ego. Temos raiva, queremos nosso objeto de volta, mas essa raiva não tem um destino externo. É aí que odiamos a nós mesmos.

A sensação de ser horrível é muito boa, pois é o pressuposto para o carinho. Existe uma certa regra social que postula que amigos devem confortar os amigos tristes, que familiares ou parceiros devem fazer este trabalho de acolhimento: normalmente é exatamente isso que acontece e é por isso que ter gente em volta é uma bênção.

Tem tristeza mais blasé do que 500 dias com ela?

Ser triste tem aquele leve ar de filme francês, aquilo que faz qualquer paulista achar que está em Paris e que sua vida é mais do que um cotidiano bobo de pegar metrô e ir pro trabalho medíocre dentro da agência de publicidade. Qual paulista triste que não gosta de tirar foto em PB, tragando um cigarro em um dia chuvoso e expondo um leve ar blasé? Com certeza um monte, mas uma porrada adora o estilo de vida da tristeza.

Não há nada mais desonesto que o estilo de vida da tristeza. A tristeza foi feita para ser superada, não para ser consumida. Estar triste, depressivo, melancólico, não é escutar Joy Division, não é fumar com cara blasé, não é ler Caio Fernando... Estar triste é horrível. Estar triste é sentir-se triste, não é tomar café em demasia ao longo do dia chato de trabalho na mais-chata-ainda agência de publicidade. Isso tudo pode acontecer com sentimentos reais da tristeza, mas este é um estereótipo do estilo de vida da tristeza.

Um triste mentiroso?

Sair da tristeza é como reviver. De repente se percebe que a libido pode ser investida em outros objetos e que o ego está forte. Em outras palavras, podemos nos excitar com coisas aleatórias e não nos sentimos a pária da humanidade.

Então porque existe este "estilo de vida" da tristeza? Esse ar colonizado de imitar os gestos franceses, de querer o clima londrino e de sofrer como os personagens de Godard? Quem sofre desta forma? O estereótipo do branco da comunicação (e da branca da comunicação) não é à toa. A tristeza só é estilo de vida para aqueles que conseguem consumir produtos culturais que tenham na tristeza o seu foco (e o seu modelo). Filmes franceses........


Vinicius Siqueira

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