Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Jota Quest e Los Hermanos são a mesma coisa

Los Hermanos e Jota Quest pertencem ao mesmíssimo mundo. São lados de uma moeda já muito desgastada. Que tal conhecer um pouco desta moeda?

É claro que o título é uma provocação. Não quero dizer que Jota Quest é igual Los Hermanos estritamente, mas que o que o Jota Quest faz está na mesma esfera de o que o Los Hermanos também faz: música comercial. Então, pra aumentar o leque de possibilidades, pode-se dizer que Jota Quest, Los Hermanos, Capital Inicial, Legião Urbana, Ultraje a Rigor, Moptop, Mutantes e tantos outros grupos estão nesta mesma esfera.

Então, o que faz com que algumas sejam agraciadas com os clamores de públicos intelectualizados, enquanto outras são taxadas como mero produto comercial? O que separa o joio do trigo e como ocorre essa separação? 

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Uma coisa é clara, é muito fácil de observar esta separação e eu posso utilizar as duas bandas do título deste texto para realizar esta operação: Los Hermanos e Jota Quest se opõem como a arte se opõe ao mercado, como a poesia se opõe à redação publicitária, como o amor se opõe ao cálculo racional, como o calor se opõe ao frio. 

Los Hermanos = arte/cultura, Jota Quest = mercadoria. Mas ambas estão na MESMA indústria cultural. Ambas realizam shows nos mesmos tipos de festivais, participam das mesmas premiações e estão disponíveis no mercado mais ou menos da mesma forma. As duas fazem uma música que pode ser escutada pelas mesmas pessoas (estruturas similares, poesia linear similar, uso dos mesmo instrumentos, mesmas técnicas e etc). 

Elite intelectual brasileira 

Primeiramente, é preciso entender que a elite intelectual brasileira não escuta Bach. A elite intelectual brasileira escuta Caetano. Quero dizer, a elite brasileira não foi formada com a música erudita, mas sim com a Bossa Nova e com a Tropicália: João Gilberto, Chico Buarque, Caetano Veloso, Tom Jobim, Vinicius e Toquinho, Gilberto Gil entre tantos outros artistas fizeram a "cena" cultural das elites brasileiras. 

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Fazer parte dessa cultura dita legítima (ou seja, cultura "de verdade") é fazer parte de uma cultura superior, sublime, puramente artística, que valoriza o sentimento muito mais do que a racionalidade do mercado, que expressa a beleza do eu interior, que não se sujeita às regras do senso comum e que está além do bem e do mal.

Esta é uma regra mais ou menos inconsciente, pois é naturalizada. Parece que Jota Quest é do mercado simplesmente por que é e que Los Hermanos é cultura "de verdade" simplesmente por não ser um Jota Quest da vida. Se você perguntar pra alguém apreciador da cultura "de verdade", Jota Quest é ruim por que é ruim, por que é "plástico", por que não conquista, por que não tem poesia, por que falta um toque de inspiração, por que é "produzido demais". 

Mas dizer que a elite intelectual brasileira é ouvinte de Caetano e não da música clássica, como a elite intelectual europeia, significa dizer que a luta dentro da esfera artística e cultural do nosso cotidiano está baseada em uma oposição de tipos de bandas e artistas que se parecem muito mais do que se diferenciam. 

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Arte do mercado X arte pela arte

A oposição que marca a esfera artística e cultural é entre a arte que está subordinada ao mercado e a arte que anda sobre as próprias pernas. Ou seja, se trata de fazer uma oposição entre mercado e arte. A arte que se submete ao mercado seria uma mercadoria, enquanto a arte que assim não se comporta, aquela que é feita por ela mesmo, é uma arte "de verdade".

Como já fica fácil de perceber, esta oposição tem como parte privilegiada a da arte "de verdade", contra a desmerecida e banalizada arte do mercado. A arte pela arte é a arte legítima, é aquela que merece ser classificada como arte e é aquela consumida pelas elites - no caso da Europa, a música clássica seria uma exemplo perfeito. A arte para o mercado é aquela que foi feita em um processo de produção sujeito aos interesses de mercado, é a música feita para o lucro, como toda música pop (e, aqui, pop precisa ser visto como o outro lado da moeda da música erudita). 

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Como já dito, no Brasil, as elites intelectuais produziram e consumiram a Bossa Nova, a MPB e a Tropicália. Mas esses três gêneros não são substancialmente diferentes da música do mercado. Apesar de serem descritos como "arte pela arte", poesia, arte com o coração, arte que sai da alma, dom e etc e etc, a estrutura musical não foge muito do restante da música pop. Vale dizer, a Tropicália, por exemplo, é classificado como música pop, em oposição à música erudita. 

Então, primeiramente, devemos entender que no Brasil, podemos classificar sem medo de erro a Bossa Nova, a MPB e a Tropicália como os lados legítimos da arte, como a arte "de verdade", enquanto os Jota Quest's da vida seriam a mercadoria. Mas ambos estão imersos na indústria cultural! Ambos se parecem, ambos vendem muito!

O que faz com que Los Hermanos, herdeiro proclamado da MPB, seja arte "de verdade" e Jota Quest não?

Prestígio

A filiação artística pode ser uma resposta. Los Hermanos é arte de verdade por que é filiado ao grupo da arte "de verdade". Los Hermanos é arte "de verdade" por que quem escuta arte "de verdade", também escuta Los Hermanos"; Los Hermanos é arte "de verdade" por que quem quer ascender ou permanecer na elite intelectual, escuta Los Hermanos. 

Muito pelo contrário, o gosto por Jota Quest é negado, evitado ou escondido. No fim das contas, a poesia não importa, ela é só uma justificativa para o gosto. O gosto de verdade, o verdadeiro motivo de se gostar de Los Hermanos e odiar Jota Quest (que fique claro que essas duas bandas são somente exemplos que podem ser substituídos por diversos outros, como Chico Buarque x Valesca Popozuda, Caetano Veloso x Zeca Pagodinho, Cícero x Os Hawaianos) é o prestígio que o gosto pode agraciar aquele que gosta.

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No fundo, a música feita "da alma" ainda é uma música feita com regras, da mesma maneira que a música "mercadoria". As regras são outras, mas buscam interesses parecidos: um quer o sucesso na esfera econômica, quer receber as premiações da esfera do mercado, ou seja, quer vender muito, já o outro quer as premiações da esfera artística, como a participação em eventos culturais, resenhas em revistas cult ou em programas intelectuais da televisão.

Mas aí chegamos ao ponto principal. Elites culturais não são chamadas assim à toa, são elites por que mandam, por que definem o gosto correto e definir/consumir aquilo que é correto dá prestígio. Prestígio move relações de poder e causa a dominação. As elites culturais, ao colocarem a MPB como arte "de verdade" e o Jota Quest como arte para o mercado estabelecem uma relação de poder com os consumidores destas artes. 

O consumidor de Jota Quest (ou Valesca, ou Os Hawaianos, ou Bruno e Marrone) sempre será um desprivilegiado culturalmente, enquanto o consumidor de Los Hermanos (ou Chico, ou Caetano, ou Novo Baianos, ou Johnny Alf) sempre será um sujeito privilegiado culturalmente, que tem a possibilidade de mover mais relações de poder e que consegue acumular mais prestígio. Escutar Los Hermanos não é um ato de gosto refinado (foda-se a poesia), mas é um ato de dominação, seja ela consciente ou inconsciente.


Vinicius Siqueira

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