Vinicius Siqueira

Fascista desde criancinha

Não sabemos lidar com sexo

Por que ainda lidamos com o sexo como cristãos? Mesmo em épocas líquidas, o sexo permanece algo a ser nomeado, classificado e julgado. O próprio "sexo casual" é uma classificação broxante. Sendo assim, qual o problema da satisfação sexual?


Nós não conseguimos fazer sexo.

Digo, nós até fazemos sexo, aquela coisa biológica, aquele juntar de corpos e por aí vai. Mas nós não sabemos como lidar com o desejo sexual. É mais ou menos simples: nós temos desejos sexuais que precisam ser satisfeitos. São desejos animais, fortes, pré-culturais. São desejos de vida e morte.

Mas por que eu fiquei o dia inteiro me indagando sobre esta situação? Eu li um meme por aí sobre sapiossexualidade, que seria atração sexual por alguém inteligente, então, logo em seguida, eu vi uma postagem contradizendo essa primeira, afirmando que a noção de sapiossexualidade reforça o patriarcado.

Não pretendo analisar a lógica de qualquer uma dessas postagens, isso não me interessa agora, mas acho surpreendente que alguém se sinta obrigado a dar nome ao desejo sexual (a tão bem classificada sapiossexualidade) e um outro alguém se sinta obrigado a discutir este desejo, como se fosse um desejo impróprio - o que significa que existem desejos que são, por sua vez, próprios, legítimos, "legais", autorizados.

As pessoas precisam nomear seus desejos. Pior, elas precisam discutir a legitimidade do desejo. Como se uma coisa não fosse mãe da outra: o desejo sexual só toma forma num objeto (ou seja, em alguém) depois de passar pela cultura, a mesma cultura que vai proibir o desejo posteriormente por não ser autorizado. É como se o sexo só fosse possível se com amor. Só se pode fazer sexo com amor.

Fazer sexo com amor, eu quero dizer, é fazer sexo com a justificativa aceitável. Você não pode fazer sexo pelo sexo, mas precisa fazer sexo (em algum grau, pelo menos) para o outro. E olha que estamos em época de amores líquidos: tudo é fluido, flexível, ninguém tem planos para a vida toda e, mesmo assim, ainda precisamos do grande Outro pra dar uma trepada. No fim, talvez essa seja a maneira contemporânea de fazer do sexo algo além de uma masturbação assistida.

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Por sermos sujeitos da cultura, é impossível fugir dessa mediação entre o desejo e as regras culturais que permitem a satisfação deste mesmo desejo em objetos (pessoas ou não) aceitáveis. Posto isso, o que precisamos é descobrir uma maneira de darmos livre fluxo aos nossos desejos sem a necessidade humilhante de pedir permissão: o que eu quero dizer é que é necessário saber que sexo pode ser só sexo.

Isso parece óbvio, afinal, o que mais vemos são filmes a respeito, amigos que contam detalhadamente trepadas animalescas e, no finzinho do relato, dizem que era só uma trepada qualquer, até você mesmo deve ter transado de um jeito que você pôde falar para você mesmo, "essa foi só uma trepada casual", mas será que essa classificação da "trepada casual" também não é mais um jeito de enclausurar o desejo?

Com certeza a classificação do desejo é uma boa: faça à vontade. Mas não precisa ser algo tão rígido. A própria existência de relatos de trapadas casuais "animalescas" já mostra a necessidade de classificar uma trepada ao rótulo de casual. Não foi só sexo, foi "sexo casual".

É como se um machado permanecesse parado ao lado de nosso pescoço, esperando o momento em que trepassemos só por trepar para arrancar nossa cabeça fora. É como se esse grande machado de ferro só pudesse ser evitado a patir do amor, da sapiossexualidade, dos diversos fetiches estranhos que são nomeados a cada dia, por fim, como se a humilhação de pedir perdão pelo prazer sexual fosse a nossa salvação. Como se a satisfação sexual fosse a morte da sociedade.


Vinicius Siqueira

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