hermenêutica da razão e emoção

Navegue por esse mar de pensamentos. Seja bem-vindo à fronteira do desconhecido...

Magno Beltrão

Um poeta, um amante. Abusado e vibrante. Completamente apaixonado pela vida.

A flor azul

"A literatura é a chama que nos aproxima do amor, assim como o amor é a arte que nos aproxima de nossos mais profundos desejos. Quem ama, encontra conforto e liberdade na figura idealizada da pessoa amada. O romantismo presente no coração trovador, por vezes reverencia a criatura objeto de contemplação e afeto,ao narrar entre acordes, o amor verdadeiro, carnal e intermitente. Este sentimento, advindo do sangue de seu criador, enobrece o espírito de tal ânimo, que, estando ausente, a luz das horas se enfraquece. E, se por acaso o idealizador do realismo poético não estiver cercado pela verdade, este será lembrado apenas como a tinta do mundo."


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"Enquanto aguardava o trem, Antônio escreve um poema...

Deito-me remanso Tal como outrora me vias Por entre miragens e cascalho Na linha do horizonte de Scarina

Olho o céu, com absurdas saias iluminadas Lembro-me de ti, meu primeiro amor Que todos os dias, beijava aos versos Temendo o amor não distanciar

Esta manhã, uma tristeza me acordou. Decidi relembrar com saudade, da infância Carregando em mim a alegria, que todo sofrimento Guardava por entre meus escombros

Pouco antes do meio–dia Árvores tocavam as janelas Querendo em suas doces sombras Arrancar do peito, um sentimento que tremia.

Tive a mais odiosa notícia Minha amada Alice – cuja paixão despertei Partiria ao encontro das ondas do Mediterrâneo E arrancaria pela raiz, o nosso amor

Lágrimas desafiando a gravidade Despindo meu tempo em suave melancolia Viajei para terras mais alegres que Atenas Enfim, tive a certeza de que o muro das lamentações era real

Desolado com o início de mim Parti, num versículo de minha torturada alma A compor estradas, imaginando desolado Os lugares, onde a solidão jamais me alcançaria

Quando minha viagem teve início Na mais bela aventura noturna, regada à malas e fumaça Tuas vestes, ainda estavam pelo chão em meus pensamentos E, posso dizer, com amor ,que as doei

Ao longo do caminho das videiras Minha ternura enfurecida, proferia : “Me tomas logo! “ E logo em seguida caia, pela amargura do balançar de outra avezinha Que pulava sob o céu, a observar paisagens bucólicas

Tinha um rumo certo A Quinta da mocidade, meu alazão E demasiada candura fazia morada Para que outra infeliz não pudesse degustá-la

Quando a tarde caia, a algumas léguas de casa Coloquei as malas no chão e atravessei o lago Procurava respostas que não me obrigassem A compreender o passado, nem afrontar o presente

(Ele vê alguém na estrada e continua a escrever)

Deparei-me, no alto da estrada Com uma moça, em seu vestido azul E sorriso de donzela, num caminhar lento Cuja direção dos quadris, me satisfazia

Eras a mais linda das ninfas Ou seria mais uma miragem? Fato é que minhas vistas queimaram Ante aqueles olhos criados por afetos humanos

Não sabias, que transportava em mim, aquela altura Grande dor e uns três romances cheios de vinho E tu? Carregavas em teus lábios de framboesa Meu coração na forma de uma paixão

Estávamos indo na mesma direção Quando a chuva de Outono nos pegou Abrigamo-nos em uma cabana abandonada Ali, um teto volúvel haveria de nos proteger

(Eles procuram abrigo no casebre)

Apressei dois passos em direção à tua beleza Nos encaramos, você com uma nobreza silente E eu, ainda como quem acendia uma lareira Ajudei-lhe a enxugar-se do orvalho da tempestade

A noite aproximou-se rapidamente da janela Eis que achei por entre a madeira empoeirada Algumas roupas amassadas e um pouco de vinho E ela, intrigada comigo, passou a me interrogar.

(Capítulo I)

-Olá! Olá! Eu me chamo Alexis. E você?

-Olá. Você tem um belo nome. Eu me chamo Antônio Muniz Sirgan.

-Diga-me o que procuras por estes lados! – olhou-me fixamente

-Estou a curar-me de uma enfermidade. – respondi.

-Hum! Males da alma, eu suponho. – exclamou.

- Antes fosse por tal razão, bela donzela. Padeço de uma dor que se instalou em meu coração.

-E não há remédio? – perguntou, enquanto sentava em uma das cadeiras.

-Não tenho formação acadêmica, senhorita, para definir tal enfermidade – devolvi.

-Espero que melhores logo, tenho simpatia por ti e desejo tua melhora. Afinal, protegeste-me da solidão e de uma chuvarada sem fim. Devo minha vida a você, meu salvador! – afirmou, com um sorriso nos lábios.

- Estimo que minha alma vá se curar, tal como acredito que o sol brilhará no horizonte pela manhã e poderemos caminhar em busca de tua casa. – respondi, posicionando as mãos por sobre a mesa.

-Bom. Não tivemos a sorte de encontrar uma casa abastada, de modo que por ora, este será nosso lar. – ela levanta-se a começa a procurar roupas secas e lençóis pelo casebre.

-Achei uma vela, papel, uma pena e um pouco de tinta! – ela grita. Podemos contar histórias de terror, a fim de que a noite não seja tão exaustiva quanto o som dos trovões que estão a me assombrar.

-Está bem. De qualquer forma, os raios e turbilhões d´agua nos farão companhia. – esbravejei.

- Antes que me esqueça, tenho que lhe perguntar. O quê uma moça tão bonita está a fazer sozinha por estes caminhos tortuosos da província?

-Estou à procura de um homem virtuoso. – ela gargalha. É brincadeira. Estava a colher flores pelo campo e afastei-me demais de casa. Foi quando nos encontramos.

- Quanta coincidência! O destino, hoje está a aprontar travessuras nos cidadãos de bem. Nem por um segundo, imaginaria encontrar-lhe.

- E quantas perguntas, meu caro! Por acaso és da polícia? Se bens que tu se pareces com um defensor da justiça. – ela indaga, enquanto aponta o dedo indicador para o centro da mesa.

-Não sou portador de tamanhas virtudes. Apenas me reservo como um homem simples, sem posses, dono de mim e filho do mundo. – respondi, mordendo os lábios.

-És um viajante? Se fores, conta-me suas aventuras pelo mundo. – ela se aproxima da mesa, com os olhos brilhando.

-Sempre vivi pelo mundo a colecionar estórias. A minha vida não é tão interessante, porém, os fatos que consegui presenciar nessa existência, me ensinaram muito. – respondi, com o punho fechado, apoiando o queixo.

-Também acredito que aprendo, ao observar o mundo todos os dias. Outro dia pude entender que algumas coisas na vida precisam de tempo, tal como as plantas. Algumas precisam de anos para a maturidade, ao mesmo tempo em que algumas têm um ciclo de vida menor. Cada espécie, em sua plenitude, determina o papel que cumpriremos na vida. Enfim, acredito que nós, seres humanos, também o fazemos.

-Você se refere à interferência de cada um na vida dos outros? – questionei.

-Sim! Imagine o quanto nossa conversa estimule sua imaginação a gostar ou desprezar alguma atitude ou ideia. Pense no quanto somos capazes de influenciar a vida de outrem. – ela respira fundo, olhando para baixo.

-E de que forma você deseja coexistir eternamente no pensamento destes atores sociais? – perguntei sorrindo.

-Através das revoluções simples. Veja bem! A água, o café e o açúcar, por exemplo. Sozinhos, não representam muita coisa. Entretanto, quando juntos, sendo adicionado calor, temos uma bebida deliciosa, fruto da união de coisas simples – ou ideias, como queira representá-las. Fiquei com vontade tomar café agora, que maldade comigo. – ela sorri, enquanto cruza as pernas por baixo da mesa.

-Quer dizer que você, meiga senhorita, é uma sonhadora. – acenei cruzando os braços.

-Ah, meu caro. Quantos sonhos foram realizados, assim? Você, meu amigo realista, menospreza a importância do sonhador. – ela retruca com firmeza.

-Creio no que está sob minha face. Coisas intangíveis não costumam me impressionar. Temo que deva contar-lhe uma verdade sobre as coisas: se alcançarmos nossos sonhos, a vida terá sido um desastre. É por esta razão que Deus os coloca tão longe de nós, para que os busquemos incansavelmente até o fim da vida. – conclui sobrepondo as mãos em cima da mesa.

- E no amor, você acredita? – ela o desafia.

-Bom, acho que ele está em algum lugar em nosso corpo, lutando para ser mais forte que todas as outras emoções. Quando, tolamente nos apaixonados, cedemos espaço para que ele nos domine. Como somos tolos! – resmunguei inclinando a cabeça para olhar a janela.

-O amor não é uma tolice. É um tormento admirável, que nos torna humanos e capazes de tudo.

Através dele, pessoas criam, perdoam, acrescem, felicitam, contemplam e enfeitam outras. Tudo isso por amor. Há uma razão mais sublime para alguém viver neste mundo? – ela interroga.

- Creio que sim. Quando ainda me encontrava na estrada – antes da chuva, pedi ao criador que caso fosse digno, que ele me respondesse algumas respostas. Nenhuma delas, todavia, foi solucionada. Razão pela qual temo que não fiz as perguntas certas ou ainda não estou ao alcance destas.

– É um ponto de vista. Não desmereça algo por que alguém o iludiu. Eu sou romântica, você tende a corromper meu coração de manteiga. – ela responde, com um das mãos sobre o ombro esquerdo.

- E precisas do quê, para tornar o amor em algo real no coração? – ele provoca.

-De amor. Algo puro e tão grande, que as pessoas que me vissem, não saberiam dizer se fui tomada pela divindade ou se me restam apenas alguns minutos de alegria. – ela fala com vergonha, enquanto busca por um pedaço de linha no botão do vestido.

-Se fosse tão simples, todos o fariam. O amor engrandece e destrói a alma dos apaixonados.

Por meio dele, navegamos sem leme, sem porto seguro. Posso dizer que não há segurança alguma em amar. – ele contesta.

-Dá-me tuas mãos! Anda! – ela suplica.

- Para quê? – ele se fecha.

- Faças o que peço. Tenho medo que pessoas infelizes tenham desacreditado tanto do seu carinho. – ela reitera o pedido, esticando os braços para frente.

-Está bem. Só por essa noite, deixo que seja minha aristocrata. – ele resmunga.

-Estou a salvar-te da tua própria amargura e egoísmo. Sei que não és assim. Tenho pena de quem lhe moldou em escultura, mas não lhe desenhou o peito ardendo em febre. Quando tocá-lo nas mãos, permita em seu íntimo, que sintas no pulso, as batidas do meu coração, que acelerará cada vez que nos olharmos; quando passar entre teus braços, amorne o calor da minha pele, para que me acalmes. – ela o instrui.

-Qual é a intenção de vossos atos? Senti, em meu coração, tudo aquilo que prometeste. No entanto, por que devo permitir que um sentimento tão maléfico, que precisou ser abandonado há muito tempo por mim, me invada de novo? Infelizmente, não posso, nem quero atrasar meu desgosto. – ele tristemente se afasta e anda pela sala.

- Por que isso o embaraça? Não vês que este afeto lhe foi dado de presente? Podes senti-lo diversas vezes, sempre que possível, apenas utilizando como ferramenta de resgate, a saudade das coisas boas que fizemos um pelo outro. – ela insiste, enquanto o segura pelo braço direito.

-Não vês que não lhe quero mal algum? Ainda insistes em me reduzir a uma tristeza sem fim que me assombra. Estou vivendo nas sombras do que eu fui. Quero que me deixes em paz! – ele se afasta.

-Eu não vou desistir de você. Se desejares esquivar, que o faças longe de mim. Busco sempre a verdade em teus pensamentos, e a gota de amor que ainda sobrevive em ti, é um refúgio para a minha alegria. Quando pensares melhor, enxergarás que estou certa. Por enquanto, tens de refletir sobre coisas banais: será melhor assim. – ela anda em direção a um dos quartos.

(Alguns minutos depois ele entra no quarto).

Ela estava de costas, quando ele senta ao pé da cama para explicar-se. -Olha senhorita. Não vem de mim, qualquer intenção de aborrecer-lhe, nem discordar de tudo que fazes de boa intenção. Acredito que sou um caso perdido. O autocontrole que exerço sobre mim e as coisas que me rodeiam diariamente, estão a me confortar. Não preciso de nada mais que isso.

(Ela se vira e o encara)

-Então, por que me olhavas tanto nos olhos? Por qual razão - traiçoeira de certo, nosso encontro de caminhos? Explica-me o motivo pela qual tua boca se contrai levemente quando discordas de mim e me instiga a beijá-la? Ou a causa de tua solidão fazer com que eu te deseje cada vez mais? Como deixas que meu amor saboreie o calor do teu corpo e não me sintas apaixonada, sem certezas de nada acerca de mim? Quando te olho, sinto que não sou mais um ser, apercebo nossas diferenças e elas me completam por inteiro. – ela fala enquanto lágrimas escorrem dos seus olhos.

-Quero que saibas que eu sou um erro. Meu coração, se possuído por ti, nunca mais será bem-vindo novamente. Se te alcanço a beleza, a ternura das palavras e gestos de carinho, não haverá meios de desfazê-lo. Se tens amor, minha tristeza será colocada em um barco, indo a caminho de terras desconhecidas. Se realmente te importas, me amas como mereço, pois meu coração não tem começo, nem fim: ele será teu.Darei-te a chave da minha felicidade e da minha destruição.

(Eles se beijam)

-Eu te quero, como um sol que aguarda o fim do dia para beijar a lua. Te desejo como uma tarde de domingo, daquelas em que as pessoas alegremente se encantam com sua finitude. Esforçar-me-ei para ser teu através do infinito, ainda que haja contratempos; e que estes momentos que estamos entre a carne e o desejo, fiquem guardados em nossas lembranças para todo o sempre. – ele jura, enquanto a beija, segurando seu rosto com as mãos.

-Que de todos os meus dias, os mais felizes, sejam aqueles nos quais nos encontramos e as únicas palavras realmente importantes serão as que forem ditas, tendo como fonte, a água celestial que brota do nosso amor. Serei tua, mesmo que com o resto da chama que Prometeu nos deixou. Serás em mim, um pensamento de amanhecer e outro na calada da noite, para que consiga dormir. Significarei em tua vida, enquanto me amares, apenas um sonho – ela devolve, jogando-o na cama de palha.

No dia seguinte, enquanto sua amada ainda repousava exausta por causa da noite de amor que tiveram na madrugada anterior, ele sai à procura de comida.

No caminho, deparou-se com uma flor Azul. Ao observar tamanha perfeição, percebeu que ela o fazia lembrar de Alexis. Como fora arrancada pelo vento e não tinha raiz, decidiu que a levaria a fim de presentear sua amada. Ao entrar em casa, procurou em todos os cômodos, mas não a encontrou. Quando olhou para a cama, viu a roupa que ela usava. Ao seu lado, havia uma carta com as seguintes palavras: "Sou apenas um sonho. Não desistas de mim! "

Estremecido, Antônio vê-se tomado por lágrimas. A ideia de que se tratava de um sonho insistiu por convencê-lo a partir. Desta forma, seguiu pelo caminho até a casa da família. Ao chegar e detalhar que tinha se abrigado em um casebre na noite anterior, por causa do temporal, seu pai sorriu, informando-lhe que teve sorte, haja vista que na Noite da Lua Azul, uma Deusa chamada Alexis, costumava vir à Terra para ter uma noite de amor com um mortal.

Ao ouvir aquela história, Antônio apenas sorriu."

FIM


Magno Beltrão

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