hora crítica

Ensaio sobre o nada, sobre tudo, com senso.

Rafael Pinheiro

Observador, crítico, comedor de bombas calóricas e recém descoberto como preciosidade literária. Totalmente pretensioso

O Instagram e suas "instafacetas" instantâneas

Como um simples aplicativo de compartilhamento de fotos pode alterar o nosso imaginário com os outros e com nós mesmos e ainda nos transformar em um produto temporal. Na velocidade de um clique.


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"Uma imagem vale mais do que mil palavras". Esse dito popular nunca fez tanto sentido como hoje em dia. Em plena era digital, as novas tecnologias vêm modificando a sociedade em vários aspectos e têm deixado a maior parte de nós, seres humanos, um tanto quanto preguiçosos, a ponto de não querer ler textos com mais de três linhas. Pegando carona na indiferença pela escrita e na popularização dos telefones celulares com câmeras fotográficas cada vez mais poderosas, aplicativos como o Instagram fazem sucesso na internet. E este é um ambiente democrático, onde todos podem ter acesso e mostrar suas habilidades na arte de fotografar, ainda que em muitos casos, de forma amadora, e também porque não dizer, expor sua vida a quem quer que esteja afim de acompanhá-la.

Uma nova maneira de ver o mundo através do compartilhamento de fotos é a proposta principal da comunidade, inspirada nas máquinas instantâneas polaroid,para os amantes da arte de Daguèrre e companhia se expressarem de forma igualmente imediata, e que talvez, despretensiosamente, pudesse revelar novos "Mários Testinos" anônimos no meio de tantos usuários. Porém, como muitas coisas que caem no gosto popular, suas utilizações têm sido bem distintas e possivelmente não foram imaginadas inicialmente pelos criadores do aplicativo. Com ou sem filtros, foco, ou mesmo cores, existem implícitas algumas "funções extras" para o programa, que vêm sendo muito características às redes sociais hoje em dia, como a auto promoção, a ostentação da felicidade (ou da realidade distorcida) e das causas pessoais.

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Quanto mais "curtidas" e comentários, melhor. E vale quase tudo: uma selfie com alguém famoso como se fosse seu melhor amigo de infância, uma foto super produzida no melhor estilo "glamour photo studio" em um lugar badalado e com as pessoas certas, uma foto relaxando em um lugar paradisíaco onde a maioria dos amigos jamais sonhou em colocar os pés, ou mesmo uma foto de pijama em uma cama de hospital, pode causar aquela "invejinha" de dar gosto, render muito assunto e claro, muitos seguidores. Se as fotos incluírem um bichinho de estimação ou um bebê, as chances de visibilidade crescem exponencialmente. Eles têm um poder fenomenal de gerar "tráfego" em seu perfil. É o "Santo Graal" das redes sociais. Provavelmente seja a inocência e a falta de vaidade que os fazem interessantes de verdade. No fim das contas, é uma competição por números e por atenção. Pode ser que a qualidade nem conte muito, mas ao aplicar um filtro disponibilizado pelo próprio Instagram a foto fica um arraso! O mais valioso é a mensagem que se quer passar.

Alguns perfis podem ser identificados com facilidade através da maior parte de tudo o que seus usuários compartilham. Os narcisistas acreditam que qualquer lugar é lugar para se exibirem e o Instagram é um terreno fértil, uma espécie de espelho para o ego, uma agência de relações públicas; é onde se pode cuidar de sua imagem pessoal, recebendo respostas para cada selfie compartilhada, seja ela triste ou alegre, num lindo jardim de rosas vermelhas ou nos destroços de um furacão que acaba de passar. O importante é ser lembrado, é ser o "queridinho" do seu público.

Poucos afortunados têm a possibilidade de fazer "carreira" através de um perfil cuidadosamente criado, postando fotos de seus hábitos saudáveis na culinária, com suas comidas naturais e dietas; na academia, com seus treinos e corpos esculturais, ou ainda com aquela roupa e maquiagem perfeitas para cada ocasião. Eles, de uma certa forma, se tornam sub celebridades do mundo virtual, ensinando seus truques, podendo influenciar o modo de vida de quem os acompanha e despertando também a atenção de renomadas empresas, que ao patrocinar essas pessoas, vêem nelas a possibilidade de ganhar credibilidade com seus produtos.

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Há ainda aqueles que são (ou fingem ser) felizes as vinte e quatro horas do dia, como se vivessem num eterno comercial de margarina. Não são a maioria, mas não é difícil encontrá-los. Cada vez mais a vida virtual é uma extensão da vida real, onde o importante é mostrar a felicidade; de ostentá-la para o mundo, mesmo que talvez não seja nada daquilo e na verdade ele se sinta completamente entediado ou até mesmo infeliz. Cada momento de "felicidade instantânea", fabricada ou não, deve ser registrada e exibida na vitrine do ego, como se fosse feita uma edição dos seus melhores momentos, os quais certamente fazem as pessoas especiais e queridas.

Pura exibição? Necessidade de construir uma boa imagem perante os que tem interesse em sua vida? Possibilidade de fazer dinheiro? Ou apenas a busca de uma forma de suprir a necessidade de manter a auto-estima lá em cima? Não importa o motivo. Ao mesmo tempo que a tecnologia propõe a aproximação das pessoas em qualquer parte do globo, ela tem o poder de incitar esse lado carente e egocêntrico do ser humano, preocupado em ser aceito e admirado. Esses álbuns de momentos felizes, essas personas inventadas têm um prazo de validade, como a própria foto polaroid. Uma ironia talvez. Como diria Renato Russo, "o pra sempre, sempre acaba", e raros lembram o que foi compartilhado ou comentado tempos depois. Três ou quatro dias são suficientes para que se caia no esquecimento, até porque sempre existirá muitas outras fotos esperando ávidas para serem vistas, curtidas e comentadas. Neste mundo imediatista e voraz, nossa memória é temporal. Se você conseguiu ler este texto até aqui, meus parabéns! Ainda se tem esperança que a maior parte de nós ainda se sinta interessada pelas palavras.


Rafael Pinheiro

Observador, crítico, comedor de bombas calóricas e recém descoberto como preciosidade literária. Totalmente pretensioso.
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