hora crítica

Ensaio sobre o nada, sobre tudo, com senso.

Rafael Pinheiro

Observador, crítico, comedor de bombas calóricas e recém descoberto como preciosidade literária. Totalmente pretensioso

Do "Sem lenço e sem documento" ao "Ai, se eu te pego": como a música brasileira se transformou em poucas décadas

Questões sociais e históricas fizeram com que a música brasileira fosse um expoente no mundo. E o que ela é hoje?


1968-04.jpg

Uma das funções da música que mais apreciamos atualmente é do entretenimento. E através dela, compositores e cantores exprimem seus sentimentos e idéias, e nós, por outro lado, nos distraímos, nos apaixonamos e nos emocionamos. Contudo, a música possui outras funções, como por exemplo, de ser um instrumento político e social.

Preconceitos, repressões e dilemas pessoais foram o estopim para que a nossa música fosse elevada a um patamar diferenciado, onde suas letras, recheadas de metáforas, nos faziam pensar e ter um olhar mais crítico do momento em que estávamos vivendo.

Talvez a era mais expressiva da música no Brasil tenha sido o da ditadura, ou regime militar, como alguns preferem. O fato é que de 1969 a 1985, os artistas precisavam ser muito mais criativos para passar sua mensagem, que normalmente era de oposição. E eles, de fato, se engajavam em fazer da música um objeto político, tentando driblar a censura da época. Em certas ocasiões, a população participava de festivais televisionados como se participassem de um grande comício, gritando palavras de ordem através de letras complexas e metáforas melódicas. O exemplo mais extremo provavelmente seja o de 1968, quando Geraldo Vandré com a provocante canção "Pra não dizer que não falei das flores", fez com que o regime adotasse o temido Ato Institucional Nº 5, o qual suspendeu diversas de nossas garantias constitucionais.

gil caetano espn.jpg

Entre as décadas de 60 e 70, tivemos algumas canções emblemáticas, como "Apesar de você", de Chico Buarque; "Mosca na sopa", de Raul Seixas; "Alegria, Alegria", de Caetano Velloso; "Que país é este?", de Renato Russo; "O bêbado e o equilibrista" e "Como nossos pais", ambas interpretadas por Elis Regina, que falavam da falta de liberdade, do comodismo de uma geração, da falta de perspectiva da juventude, do abuso de poder do opressor e que são lembrados até os dias de hoje, talvez sem a mesma força da época, quando escutadas pelas gerações mais novas.

Como não lembrar de Tim Maia, com todos os seus dramas pessoais, e que produziu verdadeiras obras primas da música brasileira, como "Azul da cor do mar", "Gostava tanto de você", "Descobridor dos sete mares", entre tantas outras? Ou ainda de Djavan, que como todo bom poeta, usa e abusa das metáforas para criar belas canções como "Flor de Lis", "Oceano" e "Pétala"?

O fato é que, com o passar dos anos, o Brasil se abriu ao mundo e a música passou a se tornar muito mais comercial, fazendo com que a qualidade caísse, para atender à necessidade da massa por um entretenimento consumível, sem precisar fazer muito esforço para entender o que se canta. Letras mais curtas, muitas vogais e refrões repetidos; gírias e duplos sentidos no lugar das metáforas; batidas eletrônicas ou mesmo de funk sem nenhuma letra ou com composições recheadas de palavras de baixo calão, invadem nossa casa, nossas rádios e nossos ouvidos e grudam feito chiclete como uma lavagem cerebral. É claro que nem tudo é crítica e que a música brasileira ainda tem seus expoentes, que produzem ótimos trabalhos, mas hoje os tempos são outros. Nelson Motta questiona em um texto seu de maio de 2014, sobre a produção musical na era da ditadura, se aquela geração precisava ter sofrido tanto para produzir tão bem. O meu questionamento hoje é: será que a maior parte da nossa geração de artistas deveria ser transportada para aquela época para aprender a produzir tão bem quanto eles o fizeram?


Rafael Pinheiro

Observador, crítico, comedor de bombas calóricas e recém descoberto como preciosidade literária. Totalmente pretensioso.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/musica// @destaque, @hplounge, @hp, @obvious, @obvioushp, @obvious_escolha_editor //Rafael Pinheiro