horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

A Culpa é das Estrelas

A goleada sofrida pelo Brasil diante da Alemanha doeu até no mais descrente dos brasileiros. Ainda dizem que o futebol não move corações. Vibramos, cantamos o hino, sonhamos com o hexa. Sem quantificar dores, mas talvez, somente talvez, o Maracanazo em 50 não tenha sido tão doloroso quanto a noite de 8 de julho de 2014.


simpsons-brasil-copa-do-mundo7.jpg

Somos mais de 200 milhões de brasileiros. Destes milhões, praticamente todos são técnicos e especialistas em futebol. Ao menos de 4 em 4 anos, diga-se. Ainda nessa estimativa, milhões de crianças. Joga pra mim? Eles diziam nos comerciais incontáveis antes e durante a Copa. Doeu, não doeu? Por mais que você tenha sido contra a Copa do Mundo no país de futebol, você torceu. No fundo, sabe que torceu. O discurso óbvio do "eu já sabia" ou "vamos falar de coisas importantes", entendo. Mesmo. São discursos legítimos, mas no fundo, você se arrepiava com a torcida cantando o hino após o silêncio dos instrumentos da banda, e vibrava, mesmo que timidamente, com cada gol feito pela seleção brasileira.

Agora, de cabeça fria, iniciaremos a odisséia em busca de culpados. Para isso, existem jornalistas nos mais variados programas esportivos. Aqui ou no Facebook, teremos reflexões e apontamentos diversos para toda a delegação de futebol. Para você eu digo: não é bem assim.

Defendo sim, que desde o primeiro jogo do Brasil, ressaltei em todas as minhas palavras que faltava ímpeto para a seleção. Ímpeto este, diferente de vontade. Não seria raça, mas sim, aquela chama incandescente. A mágica. O puro prazer de jogar futebol. Infelizmente, hoje ela não se fez presente. De novo. Uma hora, até mesmo a sorte e os deuses cansam.

A Alemanha, insenta da obrigação, surpreendeu ao não fazer o esperado. Pelo contrário, respeitaram o Brasil e somente gostaram do jogo a partir do momento do qual a seleção canarinho não avançou para o seu campo. Simples, mas objetiva. Nada de excepcional se comparado com os seus confrontos anteriores.

Dói. Chega a ser angustiante descrever e exemplificar o jogo de hoje. 7 x 1? Impossível. Não acredito. Para dizer a verdade, ainda não acredito.

Mas se o Neymar tivesse jogado hoje? E o Thiago Silva? A vida não trabalha com o "se", e o futebol, muito menos. Ele é feito do imponderável e é exatamente por isso que ainda deixa 200 milhões no Brasil e bilhões no mundo torcendo, sofrendo e em alguns momentos, vibrando.

Expectativas. Nos dias atuais, expectativas podem destruir o ser humano, mas no Brasil, elas atingem um nível absurdo. Com tantas coisas erradas no país, esperávamos ao menos ter uma alegria no futebol. Se a história tivesse sido diferente, misturaríamos a euforia do hexa com o discurso demente: foi comprado. Mais uma vez, o "se" é aquela mulher sensacional que você jura estar te dando mole, mas ela não está. Ela pode ter visto você e mesmo assim não ter notado você. É bem diferente.

A culpa não é do jogador colombiano. A culpa não reside nos gastos astronômicos cedidos para a construção de estádios. A culpa não é do juiz. A culpa não é do Fred. A culpa não é do Felipão. A culpa não é da Dilma. Passaremos dias seguidos procurando culpados, quando na verdade, culturamente, somos culpados diariamente frente ao nosso discurso vitimista e hipócrita de vislumbrar as coisas. Ganhe você 1 salário mínimo ou milhões como jogador de futebol. Hoje, todos sofremos de maneira igualitária. Não é justo? Não é justo.

Somos todos um só é uma grande fantasia. Precisamos ser assim diariamente, e não viver de surtos individuais como no futebol. Não se ganha Copa ou se melhora um país caminhando muito distante disso. Li alguns comentários beirando ao absurdo em poucos minutos após o término do jogo. Isso sim é preocupante. Futebol é cultura, entretenimento. Qualquer esporte que seja não pode ser espelho dos nossos atos, da nossa revolta, do nosso fracasso.

Hoje a seleção teve um insucesso monstruoso, mas nós é que fracassamos.

Ao término da partida, dentre lágrimas e vaias, o goleiro Júlio César disse algo, que na hora, acabou sendo cabível de risos e pena. Ele disse: explicar o inexplicável é complicado.

Júlio, no fundo, você teve toda a razão ao dizer isso.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @hplounge, @obvious, @obvioushp //Guilherme Moreira Jr.