horizonte distante

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Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Interestelar: o tudo e o nada

O novo filme de Christopher Nolan é uma falsa ficção científica. Ele homenageia o passado, debate o presente e incita um olhar profundo sobre o futuro plantando mais uma vez uma deia para questionarmos.


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Primeiramente é preciso procurar compreender a janela na qual Christopher Nolan e o seu irmão Jonathan, pesquisaram e buscaram associar Interestelar. O roteiro do filme fora baseado em teorias do físico norte-americano Kip Thorne, especialista no campo de ondas gravitacionais e detentor de inúmeros conhecimentos acerca de buracos negros e os conhecidos buracos de minhoca. Thorne até hoje é membro do Instituto de Tecnologia na Califórnia e atuou como consultor na produção. A partir do dia no qual a Ciência passou a transpor diversas barreiras que despertavam o descontentamento do ser humano, físicos como Thorne e tantos outros precisavam ir mais além. Eles queriam e querem entender esse além, onde o espaço e o tempo seriam tangíveis e trariam respostas inimagináveis para humanidade. É justamente nesse contexto que Interestelar procurou apoiar-se.

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Na trama, conhecemos Cooper (Matthew McConaughey), ex-piloto da Nasa e pai de dois filhos, mas que agora, devido à escassez de comida em um futuro possível, leva uma vida pacata como fazendeiro. No presente mostrado é imprescindível que o ser humano reaprenda os trabalhos braçais. A tecnologia que tanto evoluiu não foi o suficiente para trazer paz e estabilidade para o planeta. Através desse instinto de sobrevivência a história de Interestelar vai tomando forma, e com ela, conhecemos os diversos outros personagens – interpretados por Anne Hathaway, Wes Bentley, Michael Caine, Jessica Chaistain, Casey Affleck, Matt Damon e outros - e com isso a trama encorpa diversos elementos. Seria uma ficção científica comum e de puro entretenimento, mas nunca é o caso quando se trata de Christopher Nolan.

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Por diversos momentos, Interestelar parecia chegar ao seu ápice e fatalmente poderia ter tido um desfecho nestes inúmeros momentos, mas a necessidade em responder perguntas e criar tantas outras geraram não apenas pura ficção típica, mas também drama, aventura e realidade. E você se pergunta: mas e o buraco da minhoca? Ele está e não está lá. O principal chamariz do filme é justamente tratar de um assunto tão complexo e até hoje não sacramentado por nenhum homem no mundo, e por esse motivo Nolan joga com o público e consigo mesmo. Atrapalha Interestelar ter sido vendido e classificado no gênero de ficção e o mistério produzido a partir disso pode acabar frustrando muitos ao viverem tal experiência. Acontece que a jornada científica mostrada, querendo ou não precisava de um sentido. O drama familiar, o desespero sempre retratado nos mais diversos filmes sobre a humanidade galgar uma espécie de novo lar que não é a Terra e tantos outros elementos cabíveis e conhecidos. Narrativas legítimas, mas travestidas por mais uma ideia de Nolan: o questionamento. Continuando o trabalho semeado nas produções que compõem a sua filmografia, o diretor e roteirista novamente procura instigar reflexões. Nolan parece a cada filme, querer inserir preocupações e correntes de pensamento que por vezes, deveríamos considerar. A existência em si, a compreensão da pergunta e não somente o anseio pela resposta.

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Na verdade Interestelar são dois filmes sobrepostos e opostos ao mesmo tempo. De um lado temos a jornada científica e a contemplação dos diferentes e possíveis universos, e do outro, a existente prova do poder reflexivo e tateável do ser humano. Acima de conceitos, crenças, conhecido ou desconhecido, Interestelar é mais um capítulo da ousadia de Christopher Nolan em questionar aquela que talvez seja a dúvida mais angustiante do homem: quem somos nós?

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Tecnicamente de encher os olhos, a viagem espacial constituída de Interestelar é fugaz e ainda assim tangível de possibilidades, onde o homem pode encontrar a si mesmo sem deixar a centelha inerente da ciência perder-se na razão ou no sentimental. É um equilíbrio, mas sem atalhos. Tudo e nada.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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