horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Christopher Nolan para poucos

Nolan é considerado por muitos um visionário na indústria cinematográfica. Descontruindo sua filmografia, nada é o que parece e o que parece talvez não seja.


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Christopher Jonathan James Nolan é o seu nome de batismo. Inglês nascido no dia 30 de julho de 1970, Christopher Nolan vai aos poucos conquistando o status de visionário, e para alguns, até mesmo de gênio nos cinemas. Seu modesto currículo inclui apenas nove filmes, dos quais quatro constam numa seleta galeria das maiores e mais lucrativas produções do cinema. Sem deixar o lado criativo de lado, Nolan vai galgando satisfazer não apenas o apetite do público por boas estórias, mas também o seu desejo próprio de inserir mensagens, ideias e sentimentos para uma Hollywood que há tempos vinha apenas enchendo linguiça, por assim dizer.

A trajetória do cineasta dificilmente passa em branco para grande parte do público, mas certamente apenas alguns navegaram em detalhes nos seus filmes, que cronologicamente podem representar um abismo filosófico sobre as coisas. Após dirigir dois curtas Larceny (1996) e Doodlebug (1997), Nolan finalmente ganhou a sua primeira oportunidade em comandar um filme com início, meio e fim. Eis que surgiu Following (1998)

Na trama de Following, Jeremy Theobald vive um escritor frustrado que acompanha a rotina das pessoas nas ruas buscando inspiração para escrever. Em uma dessas "perseguições" o protagonista conhece um ladrão, no qual faz amizade e junta-se para assaltar casas. A pequena aventura acaba transformando o personagem de Theobald de tal forma, que contos deixam de ser vitais. O importante não é escrever sobre as vivências do outro, e sim conquistar as próprias. Nolan demonstra no seu primeiro trabalho, qualidades incomuns para um diretor/roteirista iniciante. Além da técnica dando sinais de evolução constante, vislumbramos a existência empolgante do novo, da paixão pela sétima arte. Following pode não parecer, mas é o primeiro da saga mental de Christopher Nolan para enxergar além do óbvio, ultrapassando barreiras para o conhecimento humano através do cinema.

Três anos depois Nolan, ao lado do seu irmão - Jonathan Nolan, parceiro nos roteiros de todos os seus filmes vindouros, o irmão mais velho dirige Amnésia (Memento - 2001), estrelado pelo até então esquecido no limbo de Hollwood, Guy Pearce. Para Amnésia, Nolan desdobra o espectador exigindo atenção máxima para compreender o modo pouco convencional da trama. Pearce vive Leonard Shelby, que após um assalto, sofre ferimentos graves que o deixam com amnésia - obviamente, mas o tipo de condição não o permite lembrar de acontecimentos passados há 15 minutos. Para descobrir como ficou ferido e como sua esposa acabou morrendo no assalto, Shelby precisa reconstruir os seus passos. O filme se passa inteiramente ao acontrário. Do fim para o início. O exercício como mencionado acima, exige do espectador paciência e atenção aos detalhes, mas o mais interessante é visualizar novamente o embalo de Nolan para descontruir padrões. Sejam cinematográficos ou humanos, o diretor evoca nas ações do personagem de Shelby novas facetas reflexivas sobre o ser humano em si.

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Em 2002, Nolan reúne nomes de peso como Al Pacino, Robin Williams e Hilary Swank no thriller policial Insônia.

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Com uma trama aparentemente conhecida para os filmes do gênero, o suspense toma conta em pequenas doses. Nas escolhas dos seus protagonistas, a condição humana é novamente colocada em primeiro lugar. Mesmo com tiros e outros clichês cabíveis, Nolan apresenta em pequenos diálogos, planos e olhares dos próprios atores, a sensação do humano diante das consequências para os seus atos. Traição, segredos...fazer o certo. Escolhas que poderiam soar mundanas, e que de certa forma até podem ser, mas deixar de lado o ponto reflexivo do assunto não parece ter sido uma escolha opcional para o diretor.

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No ano de 2005 chegaria aos cinemas o filme que seria o ponto mais importante da carreira de Christopher Nolan, e que também marcaria o seu longo afeto e compromisso com os estúdios da Warner Bros.. Mesmo com opiniões dividas no passado e com grande ressalva por parte do estúdio, Nolan apresentou o roteiro ao lado de David S.Goyer em 2003. Ambos estavam confiantes que Batman Begins poderia apresentar o personagem de uma forma inédita, prezando não somente pelo lado grandioso, mas também agregando qualidade e semelhanças com os quadrinhos - argumentos constantes para comparações feitas por nerds ou entusiastas do gênero. O estúdio quase declinou, mas deu sinal verde para o projeto. Com um orçamento na casa dos US$ 150 milhões, o filme que teve Christian Bale - outro presente no limbo, vivendo o homem-morcego teve também um rendimento modesto nas bilheterias, mas ganhou força nos meses seguintes junto ao público e terminou por ser viável comercialmente e alvo de boas críticas. Foram arrecados cerca de US$ 372 milhões.

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O grande ponto alto do filme fora mostrar Bruce Wayne surgindo. O Batman estava lá, mas na origem era possível encontrar fatores comuns e realistas que aproximassem o público do filme, sem deixar de reconhecer o lado psicológico, sentimental e humano das nossas escolhas e anseios. Com diálogos afiados, principalmente nas cenas contracenadas entre Bale e Liam Neeson, Batman Begins deixou fãs de Tim Burton e Joel Shumacher debatendo durante horas, mas o mais importante, imprimiu um novo ritmo nas aventuras adaptadas dos quadrinhos para os cinemas.

Para respirar um pouco e colher os frutos da fama crescente entre críticos e o grande público, Nolan resolveu interromper o lado de Batman para realizar O Grande Truque (The Prestige - 2006), também estrelado por Christian Bale e Michael Caine, mas com a adição de Hugh Jackman e Scarlett Johansson.

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No mundo dos grandes mágicos e os seus segredos por trás dos seus truques, novas janelas para o imaginário do ser humano. Sobre perdas, ganhos, pontos de vista contemplados sob novos olhares. Nolan persegue a curisiosidade humana ao mesmo tempo que procura entreter o público. Era tempo de continuar em frente.

Marcado pela inesperada morte do ator Heath Ledger, Batman - O Cavaleiro das Trevas (The Dark Knight - 2008) foi um sucesso instantâneo. O primeiro filme do diretor a ultrapassar US$ 1 bilhão em bilheterias.

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Apesar dos números expressivos e da controvérsia acerca da produção por parte de muitos, O Cavaleiro das Trevas fincou de vez os pés para uma nova tendência cinematográfica, além de respirar aquele que seria o auge da carreira de Nolan até então. Usando pela primeira vez das câmeras IMAX - o diretor foi o pioneiro do uso das pesadas câmeras nas grandes produções, Nolan realizou cenas épicas e diálogos pertinentes ao momento atual do mundo, e sendo coincidência ou não, teve por consequência influências na cultura pop na internet e também nas ruas. Todavia, o grande mérito do diretor foi prezar pela utilização do real na sua jornada. Batman novamente é visto através de argumentos inéditos e possíveis mediante ao mundo fantástico. Com cenas ensaiadas e outras realizar em uma única tomada, Nolan teve campanha forte para ter sua primeira indicação ao Oscar naquele ano, mas não ocorreu.

Agora, uma nova pausa no término de sua saga com o homem-morcego para mais um filme para expandir mentes: A Origem (Inception - 2010), estrelado por Leonardo DiCaprio, Joseph Gordon-Levitt, Tom Hardy, Ellen Page e outros.

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Com uma mistura de ousadia e pretensão, Nolan forçou os limites para levar o público numa jornada inebriante sobre a mente humana, e tudo isso com tiros, explosões, excelentes atores e outros artifícios no caminho. Cenas inovadoras deram o tom para a produção sucesso de bilheteria, mas exatamente como o seu protagonista vivido por DiCaprio, Christopher Nolan plantou mais uma ideia no subconsciente do seu público cativo. Uma queda livre sem paraquedas.

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Para encerrar a trilogia, Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge (The Dark Knight Rises - 2012). Mesmo sendo considerado por muitos um desfecho mediano para dois antecessores preciosos, o último capítulo da saga de Nolan, Bale e o Batman foi sucesso nas bilheterias e consequiu boas críticas. Se aqui o diretor pouco usou das reflexões rotineiras sobre o homem e suas verdades e mentiras, ao menos notou-se novas habilidades criativas e técnicas que fazem de um diretor uma peça fundamental para o sucesso ou fracasso de uma produção. Elevando os envolvidos em uma jornada intensa de trabalho, como dito nos extras da produção: "Só não fizemos o veículo voar de verdade".

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Para terminar, Nolan galgou mais um degrau na escala evolutiva do cinema com Interestelar. O filme trata de uma ficção pautada na verdade, mas além das verdades científicas possíveis. Provocando o cerne do ser humano, o diretor novamente adentra em questões humanas interessantes com doses fantásticas e elementos narrativos necessários no cinema.

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Ainda que amado por muitos e odiado por tantos outros, Christopher Nolan merece ao menos ser alvo de reflexão. O diretor/roteirista e hoje em dia também produtor, preza por uma lealdade que querendo ou não, poucos cineastas no cenário atual ainda prezam: o amor pela sétima arte. Além de fatores financeiros e bucráticos presentes e muitas vezes necessários na vida do ser humano, não há como negar o caminho para uma empatia por observação. Na verdade, pouco importa se Nolan é gênio, visionário ou mesmo outro vendido do cinema, o importante e talvez o ímpar na sua pequena e expressiva filmografia seja adentrar em experiências vívidas. Como cada um irá sair após chegar ao topo da escada através dos seus filmes é particular, mas é de consenso que todos de alguma forma, estamos juntos na mesma cidade imaginária, colhendo ideias, propagando conceitos, fazendo escolhas, querendo ser heróis ou simplesmente procurando encontrar respostas do fim no início.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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