horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Dylan, Saramago e Kubrick: ensaios sobre o âmago da vida na urgência dos seus criadores

Bob Dylan, José Saramago e Stanley Kubrick enxergaram através de uma janela indiscreta, prazeres, dúvidas e sentimentos libertadores do afastamento da lógica comum, e tudo isso sem abdicarem da essência frágil que é o viver.


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O cantor e compositor Bob Dylan, o escritor José Saramago e o cineasta Stanley Kubrick possuem semelhanças interessantes entre os seus trabalhos e suas vidas. Da necessidade de transcender ideias e sentimentos externando assim obras incontáveis acerca da vida. Em uma fórmula totalmente inesperada, mas munida com doses ingênuas de prepotência, estes três seres humanos derrubaram pilares considerados intocáveis, redefinindo conceitos e agregando mentes curiosas e corações sedentos por experiências vivazes.

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Na biografia No Direction Home – A Vida e a Música de Bob Dylan (escrito por Robert Shelton) conhecemos não apenas o lado humano por trás de um dos maiores ícones da música contemporânea, mas também todos os detalhes antes ocultos acompanhados dos olhares perdidos, do ritmo em constante mudança e das composições que de tempos em tempos, colocam estudiosos e admiradores para refletir sobre aquilo que Dylan realmente quis dizer. Todavia, os momentos mais marcantes são apresentados na forma de um cálice sagrado, onde é possível compreender ou ao menos tentar, a extensa gama de composições modificadoras de Dylan e suas ramificações na época.

Na contracapa: “Quero que você escreva um livro honesto, não quero que escreva um livro de papo-furado. Ei, estou confiando em você. A única razão por eu estar aqui é porque sei que você o cara...Eu farei isso com você.” (Bob Dylan)

Dylan é marcado pela sua inquietude sobre o viver e o estar. Mesmo que nos dias atuais sua obra não seja mais questionada como antigamente, suas músicas ainda permanecem no imaginário de milhões de ouvintes. Eram narrativas diversas e catalisadoras sobre o preconceito, política, vida, amor, morte e o nada. Mesmo na década de 60 e 70, Dylan já previra a transformação cruel que vivenciaríamos nos dias atuais. Canções atemporais mescladas com o jeitão rebelde, na verdade evidenciaram o grito que muitos gostariam de proporcionar, o medo que poucos gostariam de viver e principalmente, sonhos que por unanimidade ainda procuramos realizar.

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Seguindo na mesma sala hipotética, José Saramago. Escritor das urgências da vida, Saramago deixou um legado inestimável exemplificado em obras como “Ensaio Sobre a Cegueira” e em “As Intermitências da Morte”, por exemplo. O português vencedor de um Nobel de literatura talvez jamais imaginasse ter o seu conteúdo consumido por tantos nos dias atuais, mas infelizmente ainda são poucos que repousam atenção e carinho para refletir sobre coisas importantes. A urgência do mundo atual não quer entrar em conflito com a mudança. Mudança que Saramago também previa: “Costuma-se até dizer que não há cegueiras, mas cegos, quando a experiência dos tempos não tem feito outra coisa que dizer-nos que não há cegos, mas cegueiras.” (trecho de Ensaio sobre a Cegueira).

O espírito transformador de Saramago ainda foi além: “Não entendo nada, falar consigo é o mesmo que ter caído num labirinto sem portas, Ora aí está uma excelente definição da vida, Você não é a vida, Sou muito menos complicada que ela.” (trecho de As Intermitências da Morte)

Se Saramago vislumbrava o cenário do completo absurdo, fato é que nas suas entrelinhas residiam doses esperançosas para novos horizontes, mas não no agora e tampouco no amanhã. Um dos maiores pensadores do seu tempo, José Saramago também pode ser considerado unânime no sentido ímpar de ter escrito com a alma, fazendo da arte a sua mais fiel companheira e acolhedora. Para ele e para todos nós.

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Por fim, Michel Ciment teve publicada uma série de relatos denominada “Conversas com Kubrick”, expondo toda a genialidade do diretor Stanley Kubrick por meio de inúmeras entrevistas com o próprio e com profissionais diversos que trabalharam com o diretor ao longo da sua carreira. No prefácio escrito por ninguém menos que Martin Scorsese:

“Ele era único, na medida em que, a cada novo filme, redefinia esse meio de expressão e suas possibilidades. Mas era mais que um simples inovador técnico. Como todos os visionários, ele dizia a verdade. E, por mais que fiquemos à vontade com a verdade, ela sempre provoca um choque profundo quando somos obrigados a encará-la.” (Scorsese – junho de 2002)

Kubrick fora um cineasta além do seu tempo. Assim como Dylan e Saramago, o diretor enxergava o subliminar quando ninguém mais acreditava ser possível elevar o espírito artístico para outro patamar. Seu estilo único de direção prezava pelo perfeccionismo, mas mesmo nas tramas ficcionais e em sua maioria adaptadas de obras literárias pouco conhecidas, o primordial para Kubrick era colocar a face do homem em questão. Objetivamente deixar o homem despido de si mesmo da forma que fosse possível reconhecer os seus piores lados.

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Dylan, Saramago e Kubrick são perfomances daquilo que o ser humano poderá alcançar ou apenas justificam-se como meros escolhidos de forças inerentes a razão? Enviados para falarem de mensagens sobre um presente preocupante e de um futuro amedrontador? Sem dúvida alguma o mundo das artes pode ser o caminho mais agridoce para ser percorrido – ainda assim ignorar a música, a literatura e o cinema podem ser desperdícios atrozes. No caso do distanciamento de encontrarmos todas as respostas, que ao menos possamos nos aproximar um pouco mais de nós mesmos sem deixarmos esvair a sensibilidade que todos somos capazes de cultivar.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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