horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar

Porque na folia todos carregamos um lado cafajeste que quer ser libertado.


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Carnaval. Época de folia e da ofegante epidemia. Ritmos contagiantes por todos os lados e corpos em igual proporção. Desinibidos. Transparentes. Observando silenciosamente, o cafajeste se movimenta e seduz. Ele quer invadir o espaço, provocar uma paixão avassaladora. E na cara de pau, o pensamento é um só: eu sou o caçador e você é a caça. Ainda assim, contrariando estereótipos, muitos são avessos ao clima das bandeirinhas e marchinhas ruas afora. Mesmo assim, o cafajeste também sabe mirar no sossego. Falando baixinho num canto distante o seu poder paralisante é tão forte quanto no meio da multidão. Pode ser uma viagem, o barzinho com música ambiente e uns poucos amigos ou mesmo o conforto do lar. Aprendiz dos costumes populares mineiros, o cafajeste come quieto.

Acima da promiscuidade atribuída ao feriadão mais esperado do ano, o encantamento do ser onipresente vai muito além da conversa fiada. Porque apesar dos anos terem sido pejorativos com ele, no fundo todos têm um pouco de cafajeste guardado no armário e é no carnaval que libertamos esse lado sombrio. Mas não se engane. O discurso do cafajeste não está embutido no número de ficadas durante o carnaval ou quais feitos são possíveis e corajosos durante o mesmo. De modo algum. O carnaval é para o cafajeste sorridente. De alma perpétua e disposta. Para descansar, para desfrutar do tempo concebido com os amigos, familiares ou conjugue.

O tal pecado suado e rasgado está contigo na alegria de ser, e ser cafajeste é nada menos que abraçar a condição durante alguns poucos dias da permissão para ser feliz. Frequentando ou não os mais variados blocos ganha-se a oportunidade de estar despido das contradições, valores e ismos impostos diariamente por conta dos compromissos rotineiros. Não se faz necessário abraçar por cordialidade, beijar por costume e tampouco apertar as mãos por educação. Carnaval é festa dentro de si. Cortejando descaradamente os amores respectivos, saudando em harmonia amigos queridos e provocando gargalhadas deliciosas entre familiares. Aí sim. Que pecado! Que pedaço de mau caminho!

Tô me guardando pra quando o carnaval chegar. Para saborear os dias, fazer as pazes comigo mesmo e permitir que o meu “eu cafajeste” manifeste-se. Através de músicas, livros, encantos, passeios, comidas, bebidas, companhias e pecados. Mas quais pecados são mais legítimos que estes?


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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