horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Leve-me até a lua

Eu quero navegar nos emaranhados dos sentimentos pulsantes, ardentes e singulares do viver.


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O dia começara como outro qualquer. Coloquei-me de pé, mas deixei os sentidos adormecidos com ternura e cuidado em cima do travesseiro. Desnorteado, atendi as necessidades matinais no mesmo ritual fatídico dos dias anteriores. Notei que existia um apego tão grande a esses rituais, que quase não pude ver quando o restante dos meus “eus”, sorrindo distante, sobre o mesmo travesseiro e, ainda por cima, acenando, saudando, recordando-me da existência diária de seguir adiante como um motor alado, correndo riscos, avistando novas estradas e novos prazeres. Daí então eu queria mais. Quis querer mais e continuo querendo mais, sabe? Num simples despertar de olhos, as coisas ganharam uma nova perspectiva. Foi tudo novo, de novo, começando, a partir do antigo e datado modus operandi da convivência social e imaginativa dos dias vividos.

Conforme o dia, desabrochava nos ponteiros canções introspectivas, hits conhecidos acariciavam a minha playlist e beijavam com lábios macios os meus ouvidos, proporcionando sorrisos e sim, certas vezes, algumas lágrimas também. Mas eu permanecia firme. Obstinado. Tateando ruas e avenidas, redescobrindo estórias e concebendo outras tantas. Entre uma nave e outra repleta de desconhecidos e vindos dos horizontes mais distantes possíveis, disse, com um olhar cordial para ela:

- Leve-me até a lua.

Sem entender absolutamente nada ela ficou sem graça. Imagino que a sensação sentida naquele momento tenha sido embaraçosa e questionadora, mas, mesmo assim, ela sorriu e respondeu:

- Por que para a lua?

Tentando devolver o mínimo de poesia do sorriso recebido, expliquei:

- Porque na lua seremos solitários de nós mesmos, mas amantes verdadeiros do tudo.

A expressão dela naquele momento poderia ser descrita como a de uma pessoa que está assistindo um filme do Woody Allen pela primeira vez ou de um alguém que está escutando uma apresentação musical completamente fora dos padrões, mas que nos acordes, você reconhece a profundidade do presenciado.

- Mas já somos todos solitários de nós mesmos e exatamente por isso que pouco somos capazes de amar o tudo, disse ela, amavelmente, mas com o olhar fixado na figura presente em sua frente.

Perdi o chão. Pouco tinha a argumentar depois disso. Sentia que a minha voz estava para se tornar figurante daquela conversa. Mas o corpo, este estava quase saltando pela simples possibilidade de ter encontrado o mais verdadeiro desencontro da vida, a resposta vinda de lugar algum.

- Você está certa, mas... , não pude completar. Não pude dizer a ela sobre a inspiração evocada em meio ao caos. Ela é o meu cais de tempos inquietos. Subitamente, o dia inteiro transcorreu na velocidade da luz. Era noite e depois dia de novo e a sensação da lacuna, da falta, do torpor incontido. Queria gritar, mas não podia. Queria me mexer, mas também não conseguia. De repente, escutei passos do lado de fora do quarto. Havia alguém presente ali. Mas quem? Tratei de direcionar os olhos para a figura em de pé, fora do cômodo. Sorrindo com ternura, reconheci a mim mesmo fora do quarto. O meu eu que sempre desperta apressado, mas sem vontade. Que muito já perdeu e que ainda está preso às rotinas mundanas do convívio social. Acenei, eu me acolhi, entrei em resignação e disse:

- Leve-me até a lua.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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