horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Odiável mundo novo

Mergulhados em tempos intranquilos, temos a rasa esperança de dias melhores. Reduzir ou não a maioridade penal é uma ilusão temporária de um céu mais claro. Saramago dizia que somos algo sem nome, mas hoje, ódio é a nossa imbecil intolerância.


Historia-Amor-e-Furia-2.jpgUma História de Amor e Fúria (2012) - Dir. Luiz Bolognesi

“Purgatório da beleza e do caos”, diz Fernanda Abreu na canção Rio 40 graus. Este mesmo Rio de Janeiro, apelidado carinhosamente de cidade maravilhosa, mas que há tempos transita distante das suas maravilhas atribuídas. A cidade é bela, o estado, um dos mais representativos do país. Então por que diariamente os cariocas são acometidos pela barbárie? Você acorda a esperar por uma nova fatalidade, por um novo acontecimento que irá tirar o seu chão e abalar valores dos quais pensava serem importantes. Não apenas no Rio, mas o mundo em si vem mergulhando em uma onda impensável de violência nascida da própria violência. Querem combater a criminalidade, a injustiça e todas as máculas sociais na base da força, da intolerância. Se isso é levantar do sofá e lutar, que tempos intranquilos estamos presenciando?

A notícia entristecedora da morte do médico Jaime Gold, esfaqueado após um assalto na Lagoa Rodrigo de Feitas – um dos maiores cartões postais do Rio de Janeiro, é apenas mais um caso da banalidade do ser humano em beber no poço da violência. É revoltante, você diz. Algo precisa ser feito, brada outro. Mas o quê? Assim como Gold, outros tantos, independente da classe social pertencente, possuem suas vidas interrompidas diariamente nos quatro cantos do mundo. Por cobiça, sede, inveja, comida, dinheiro e até mesmo por prazer. Por quê? Discutimos a pena de morte, redução da maioridade penal e outros inúmeros artifícios controladores a serem vistos como formas de estabelecer regras e condutas a fim de cessar o injusto, o violento. Mas a reflexão, talvez pudesse ser outra, como tratamos consequências do ódio com tanta naturalidade? Porque fatalidades como estas permanecem por manchar e fazer sangrar o belo, e quando temos a oportunidade de olhar pra si, de buscarmos algo que transcenda todo esse ódio, geramos mais?

Acredita-se muitas vezes, que tomar decisões é uma questão de múltipla escolha. Mas não é. O certo e o errado possuem o poder de amparar o ser humano. Todavia, encaramos a dor da perda, do infeliz e do escroto nas vivências diárias como quem define gostar ou não da banda x, da comida y ou da opinião z. Intolerantes de nós mesmos. Intranquilos por essência. De certa forma, imbecis não pela escassez de oportunidades e direitos, mas pela cegueira de não sentir absolutamente nada. Você enxerga a arma, mas fecha os olhos ou aplaude quem a usa.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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