horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

De Harold Crick, todos temos um pouco

Vozes para dar vazão.


6a00e009983955883301a73df4c85c970d.jpgStranger Than Fiction (2006) - Dir. Marc Foster

Numa manhã como outra qualquer, Harold Crick (Will Ferrell) passou a ouvir vozes. Vozes vindas de dentro da própria mente, narrando os seus gestos, pensamentos e sentimentos. O mostrado no filme Mais Estranho que a Ficção poderia ter sido apenas mais um roteiro criativo, mas nas loucuras despertas pelo cotidiano, quem nunca ouviu uma voz? Falou sozinho? O discurso afirmativo e intranquilo de assumir esta condição peculiar, talvez seja um dos vários motivos para os estudiosos da mente humana. Mas será mesmo impossível? É necessário obtermos uma resposta científica para essa realidade ou nada mais é que pura ficção?

Você há de concordar com os momentos nos quais caminhamos pelas manhãs ou adentramos pelas noites e, como quem não quer nada, escuta uma canção que só você pode ouvir, pois ela está em si. É a sua própria trilha sonora. É a válvula de escape das banalidades, a sobrevida expectorante dos problemas, o pulsar rítmico para dar vazão aos trabalhos. Indo mais além, você suspira por qualquer trivialidade no meio de todos, quando, exatamente naquele momento, você está recriando uma cena de filme? Pois bem, mais uma vez, a voz oriunda da imaginação ganha título, subtítulo e protagonista.

Acima da quantificação dos diversos problemas psicológicos que venhamos a estar sofrendo, concordemos por um segundo, que isso tudo não passa da inexplicável, mas palpável sensação de estar vivendo de verdade. Entrando em contato consigo de formas nas quais não se faz necessário falar, mas somente de ouvir. Mais estranho que a ficção, ironicamente.

Talvez, a voz personificada nos nossos delírios fabulosos seja a tentativa crível de apalpar sentimentos e intuições que não são comercializadas nas farmácias e supermercados e tampouco, disponibilizada na internet para pronta entrega. Permitir o descontrole de si é em algum nível, a melhor forma de se conhecer.

De repente não é um poder maior, quiçá uma autora agindo discretamente e manipulando o seu destino. É você. Dê vazão para a voz que não quer calar de vez em quando, some os outros eus aos já existentes. É genuíno mudar e ouvir outros inúmeros chiados além daqueles dos quais convivemos diariamente nas rodas opinativas de plantão. Afinal, de Harold Crick, todos temos um pouco.

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Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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