horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Nos anos 90, o mundo recebeu Grace de Jeff Buckley

Jeff Buckley surgiu de um acaso, mas não existe isso de acaso, principalmente quando você escuta Grace inúmeras vezes.


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Jefrrey Scott Buckley faleceu de forma trágica ao mergulhar no Wolf River, um dos afluentes do Rio Mississipi. Era dia 29 de maio de 1997. Ele tinha apenas 31 anos. O nome artístico Jeff Buckley e o único álbum finalizado da sua curta carreira, Grace, além de ser um dos álbuns mais importantes da história da música, é requisito primordial para amantes, estudiosos e pessoas de mente e coração abertos para esta sinestesia entorpecente que é de fato, ouvir Grace.

Jeff Buckley não nasceu do acaso. Filho do icônico Tim Buckley, Jeff tocava apenas guitarra, e num show tributo para homenagear o seu falecido pai, cantou e encantou pela primeira vez. Não havia volta. Não poderia existir volta. Tinha início o seu legado. Estudioso, virtuoso e portador de uma alma inquieta, Jeff passou por diversos estilos musicais antes de conceber o tão aclamado Grace. 10 faixas preciosas e urgentes que, não deixaram dúvidas, ele reconhecia a música.

1. Mojo Pin

A faixa que abre o álbum, com o vocal sentimental, sofrível e completamente fora do comum, de cara, já desperta curiosidade no ouvinte. A batida crescente, a guitarra suavemente transposta. O ritmo ganha ares cinematográficos, a canção entra em metamorfose. Você quer cantar junto, sentir junto. É anestésico. Vibrante.

2. Grace

A canção título do álbum é magistral. Difícil encontrar algum defeito visível. Talvez pela fácil identificação musical que ela evoca. Você não quer parar de escutar. Certas vezes, Grace soa como um romance vivenciado pela primeira vez. A empolgação, o sentimento do novo, tudo é tão seduzente que, por vezes, os ouvidos ficam simplesmente inebriados pelo vocal de dotes surpreendentes de Jeff.

3. Last Goodbye

O baixo remete ao mistério. A bateria projeta-se do nada. O estrondo. Last Goodbye é a balada perfeita para sintetizar relacionamentos. Uma ode à loucura emocional, quando sentimentos são tudo e nada no mesmo compasso. É excruciante. Buckley diversifica notas, dita o ritmo da dança final, do último adeus. Até o coração mais criterioso, entrega-se.

4. Lilac Wine

Na quarta faixa, Buckley inova novamente. O vocal é o tiro certo desde o início. A canção pode ser vista como uma declaração, um desabafo do corpo cansado. A resilência para buscar a superação. Embebecido pela teatralidade, Jeff não apenas canta, mas interpreta, cada verso de forma devagar e urgente. Poesia.

5. So Real

A melodia por si só já diz tudo. Ele quer, mas está com medo. Existe desconfiança. A angústia retratada e ousada dos desvios do amor. Os instrumentos parecem personagens, intercalando, nota por nota, os papéis a desempenharem nesta trama da qual ninguém sabe o final. É épica.

6. Hallelujah

A canção composta por Leonard Cohen, na voz de Jeff Buckley, talvez seja uma das melhores interpretações já feitas. Nem mesmo o próprio Cohen pode discordar disso. Ela fala com todos, independente das crenças seguidas. Jeff emociona e comprova o quanto era extremamente ímpar para a música como um todo.

7. Lover, You Should've Come Over

A faixa mais triste e introspectiva do álbum. Poderia facilmente constar na trilha sonora de filmes grandiosos, mas é figura cativa na vida de muitos. Nela, Jeff dialoga com quem escuta. Uma conversa legítima, repleta de torpor. Melodia e voz encontram afago entre si numa sintonia impressionante.

8. Corpus Christi Carol

Mais uma faixa espiritual, religiosa. Pode não parecer, mas Jeff mostra nesta faixa a vivacidade e sensibilidade da sua voz na potência máxima. Audição perfeita.

9. Eternal Life

Eternal Life é o canto de libertação. A faixa mais pesada do álbum diversifica nos estilos. Um rock rasgado com referências do blues, jazz e até do metal. Quase que impossível manter os membros imóveis sob o feitiço da penúltima canção do álbum.

10. Dream Brother

Finalizando Grace, Dream Brother é uma canção de contrastes. Agindo como uma síntese de todas as faixas anteriores, a sua melodia é espirituosa no mesmo ritmo que prazerosa. Consegue ser inquieta e tranquila numa tacada só. Desconstrói e reconstrói. O quê? Não se sabe. É uma imersão virtuosa e, pra variar, une todas as habilidades de Jeff assim como no restante do álbum.

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Até hoje considerado dono de uma das vozes mais incomuns na história. Guitarrista excepcional. Alguém que entendia a música como forma de expressão e arte. Era tudo sobre sentimentos. Sobre vivê-los. Jeff Buckley, no curto espaço de tempo no qual esteve presente neste mundo, soube, em doses desmedidas, extrair tudo aquilo que era possível com maestria. Grace está ao alcance dos ouvidos para sacramentar isto.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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