horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Quando você deixa de estar chapado

O móbile emocional transcorre a toda velocidade e nos ponteiros do relógio nem 5 minutos, mas no coração, uma eternidade de experiências capazes de dar corpo para uma adaptação literária mais detalhada que os livros de Machado de Assis e J. R. R. Tolkien juntos. Seria tão bom dar de ombros e somente aproveitar a jornada, mas o tempo de querer ser amado pela vida passou, é preciso amar-se primeiro.


als-hunter-s-thompson-in-fear-and-loathinh-in-las-vegas.jpgFear and Loathing in Las Vegas (1998) - Dir. Terry Gilliam

Um intenso dia de calor esteja dentro ou fora de um espaço físico, mas quando chega à noite parece brotar uma ávida esperança de um tempo mais ameno, tranquilo. Por que não haveria de ser? As estrelas iluminam o céu, o vento dança gentilmente na janela e os aparelhos eletrônicos construídos para o conforto climático funcionam. Mas nem sempre o programado funciona ou corrobora o desejo. A sensação é do corpo sendo engolido por um cansaço além do físico, uma espécie de estafa sentimental, onde nem mesmo a música favorita encontra um sorriso. Chorar não vai adiantar, mesmo com o calor. Então o pensamento segue distante tentando encontrar algum ponto de encontro entre os acontecimentos externos e internos. Em momentos como este, confesso, uma avalanche de memórias transborda no melhor estilo pé na porta, sabe? Erros do passado, entes falecidos, amores frustrados, decepções profissionais e acadêmicas. O móbile emocional transcorre a toda velocidade e nos ponteiros do relógio nem 5 minutos, mas no coração, uma eternidade de experiências capazes de dar corpo para uma adaptação literária mais detalhada que os livros de Machado de Assis e J. R. R. Tolkien juntos. Seria tão bom dar de ombros e somente aproveitar a jornada, mas o tempo de querer ser amado pela vida passou, é preciso amar-se primeiro.

Amar-se. Amar a própria vida com todos os problemas, frustrações e capotagens na curva. Ter tempo para sorrir a si quando o desdém vier porta afora. Poder escolher assistir o filme que ninguém quer ver, mas que faz cócegas no ânimo. Conseguir estar sozinho pelo tempo necessário sem sentir qualquer tipo de aversão simplesmente porque se quer ser e estar. Ter fé e acreditar são conceitos completamente distintos. A primeira é sobre acreditar na existência, palpável ou não de algo. Já a segunda, é acreditar porque acredita. Não há objetivo. Trata-se de acolhimento do eu, por meio de ideias, sentimentos e gestos.

Viver, na verdade, é estar chapado o tempo todo encarando realidades alternativas e tendo de estar feliz e satisfeito com o resultado diante daquilo que o mundo mostra. Quando o questionamento desperta, queridos, praticamente um apocalipse zumbi toma forma de tantos julgamentos e discernimentos diferentes sobre como é estar certo e errado, das coisas que pode e não pode. Talvez seja uma supervalorização do bom senso, mas fato é que o amor pregado não é bem assim tão puro quanto deveria. A vida é uma questão de múltipla escolha, onde a liberdade é ditada por um conjunto de opções. Fuja deles e encare o tribunal social.

Seria cômodo mandá-los para o inferno, mas daí seria limitar o potencial para um número acertado de caracteres. A vida pede mais que isso, não? Porque essa viagem diária de obrigações e regras amorosas não torna ninguém mais forte, e sim mais trouxa. O amor deve servir primeiro, sem essa necessidade de tê-lo entregue na primeira curva. Ele é dentro pra fora. Dessa forma, de repente os dias ganhem um novo sentido e os efeitos de estar chapado passem. Assim sem mais nem menos? Já se passaram mais de 5 minutos enquanto dava corpo para este texto. Acho que é seguro dizer que estou bem. Posso me amar e abraçar os meus eus sem precisar usar a postura do resiliente.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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