horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Demolidor: existe justiça com as próprias mãos?

A segunda temporada de Demolidor levanta questões densas sobre justiça e moralidade. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência.


the-punisher-daredevil.png

O potencial criativo da Marvel atingiu patamares bastante interessantes para a segunda temporada (resenha da primeira temporada) de Demolidor, na Netflix. A seriedade dos novos personagens e um clima ainda mais sombrio estava sendo aguardado, mas talvez nem mesmo os fãs e críticos pudessem imaginar episódios tão brutais e amedrontadores quanto os mostrados no novo ano da série. De um salto na narrativa bem diferente da obrigatoriedade de ser apresentado como na primeira temporada, Matt Murdock, Karen Page e Foggy Nelson retornam muito mais maduros e exacerbados de uma carga dramática bastante palpável. E tudo isso ganhou ares ainda mais tensos com Frank Castle e Elektra Natchios. Perspectivas novas foram apresentadas e não há como negar o crescimento qualitativo da série. Talvez num futuro próximo, o retorno de Jessica Jones (resenha da temporada de estreia) possa ser beneficiado por isso, já que a sua estreia fora muito abaixo daquilo que poderia, mesmo reconhecendo a sua importância. Mas voltando ao herói mascarado, desde o primeiro até o décimo terceiro episódio, Demolidor é uma jornada intensa sobre moralidade e justiça.

A espinha dorsal da temporada é, sem dúvida, Frank Castle, vivido por Jon Bernthal, o Shane de The Walking Dead. Mas esqueça por um momento o seu personagem na série de zumbis. Bernthal teve participações bastante expressivas em alguns filmes e a sua caracterização de Punisher é essencialmente uma das coisas mais memoráveis já vistas para uma adaptação em quadrinhos, principalmente no que diz respeito ao universo da Casa das Ideias. As perdas de Castle e o modus operandi de justiça com as próprias mãos são velhos conhecidos, mas como seus sentimentos, culpas e morais são debatidas ao longo da temporada, certamente levam os espectadores a uma reflexão urgente sobre se realmente é efetivo e certo fazer justiça acima da lei. Dentro dessa mesma teia, o próprio Demônio de Hell´s Kitchen termina por se perguntar as mesmas coisas, e toda religiosidade de Murdock e sua crença no sistema judiciário sofrem duros golpes que corroboram os princípios de Castle, ainda que não nas mesmas proporções.

daredevil-season-2-elektra.jpgElodie Yung vive Elektra Natchios

Por outro lado, Elektra (Elodie Yung) é a gota no oceano, onde dificilmente encaixa-se o argumento sobre os fins justificarem os meios. Ela é o caos e o equilíbrio na vida de Murdock. Junto do seu passado, revelações e construções muitíssimo bem trabalhadas pelos roteiristas da série. E o sentimento remanescente entre os vigilantes de Nova York ressaltam, mais uma vez, o grande diferencial nas últimas produções da Marvel; o apelo à realidade. Quanto mais próximas da nossa realidade forem as situações, as escolhas e as consequências, mais será de interesse criativo dos envolvidos. Porque a Casa das Ideias sempre fez questão de usar poderes e habilidades de heróis e vilões exclusivamente como adereços para chamariz, pois não somos tão distintos assim de personagens em quadrinhos.

tumblr_static_tumblr_static_5awflb7vcrcwswgs4ksok0gcs_focused_v3.jpg

No fim, sobram espaços para novos easter eggs e uma expansão ainda maior de outros personagens secundários, como retornos de velhos conhecidos. Mas o crucial no segundo ano da série, não é apenas criar novos laços e uma interdependência dos personagens que depois culmine na minissérie Os Defensores. A proposta aqui, além do altíssimo nível criativo e técnico dos episódios, é, na verdade, fazer cada indivíduo ser transportado para uma realidade não muito distante daquela que convivemos diariamente, onde pessoas são acometidas pelas escolhas mais impossíveis e, precisam cada qual na sua própria maneira, lidarem com a sutil diferença entre o certo e o errado.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/cinema// @obvious, @obvioushp //Guilherme Moreira Jr.