horizonte distante

cinema, música e tudo aquilo que se pode avistar

Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro.

Ele Está de Volta: uma sátira de Hitler à sociedade de hoje

Adaptação cinematográfica sobre um possível retorno de Hitler aos dias atuais é um espelho de figuras políticas das quais concebemos o direito da liderança.


a19ffb1885.jpgCena de "Er Ist Wieder Da" (2015) - Dir. David Wnendt

Imagine acordar e dar de cara com uma notícia estrondosa: Hitler está de volta. Inexplicavelmente, Adolf Hitler (Oliver Masucci) surge na Alemanha de 2014 com os mesmos pensamentos e anseios de alguém que foi dado como morto desde a sua última aparição, em 1945. A premissa que parece loucura é uma adaptação do romance satírico escrito pelo alemão Timur Vermes, também responsável por assinar o script do filme dirigido por David Wnedt.

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O cenário irreal mostrado na produção é propenso para muitas polêmicas, pois ainda vivemos à base de uma sociedade enraizada em certos tabus a serem debatidos. Mas tanto cuidado para encarar alguns assuntos espinhosos, provoca não apenas um reflexo dos nossos medos mais profundos, como também da compreensão e partilha de muitos até hoje com ideologias e supostas verdades aterradoras. Hitler acorda e no primeiro instante sente estranheza. Tanto no livro quanto no filme os acontecimentos são narrados em primeira pessoa. O líder nazista rapidamente corre contra o tempo para conhecer o presente e repudia o desinteresse do povo alemão por assuntos importantes; política, artes e outros tópicos de grande produção e consumo nas décadas passadas, hoje dão lugar para programas triviais, exacerbando deficiências que culminam nas grandes intolerâncias sociais.

Entrevistando diversas pessoas de sexos e classes sociais diferentes, o protagonista desta viagem cômica expõe problemas atuais facilmente semelhantes aos do passado, encontrando assim, alento e apoio de muitos. Cria-se novamente uma figura mítica numa nação carente de personagens tangíveis. Quando indagado sobre ser um monstro, Hitler rebate sobre quem, de fato é monstro; a criatura ou quem a cria em momentos de necessidade?

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A discussão filosófica revestida de piadas interessantes é fundamental para a construção de uma sátira de qualidade, mesmo que isso signifique não ser bem recebida por uma maioria de espectadores. Mas, sobretudo, torna-se visível a imagem refletida no espelho da sociedade vivenciada em tempos calorosos. A bolha temperamental para tratar de qualquer assunto relacionado ao bem comum é crescente na era digital e atinge o mundo globalizado. No Brasil, discursos inflamados sobre o certo e o errado num momento extremamente delicado na história do país. Se fosse possível citarmos sinônimos para Hitler em terras tupiniquins, fatalmente seríamos capazes de encontrar alguns representantes políticos que se intitulam líderes e verdadeiros representantes do povo brasileiro e das suas tradições. Todavia, não esqueçamos que o poder é legitimado por quem elege.

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É perigoso tratar de certas figuras usando dos argumentos da concessão de poderes inatingíveis ao povo. A manipulação e outras manobras usadas através dos mais variados meios de comunicação talvez não fossem tão eficazes se risos não fossem constantes. A piada é encarada piada até o momento em que ela se torna séria. Engasgar na própria gargalhada pode ser a janela necessária para novos mitos surgirem ou serem copiados.


Guilherme Moreira Jr.

Um inquieto sobre o viver e o estar. No cinema, na música ou em qualquer outra janela. Cidadão do mundo com raízes no Rio de Janeiro..
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