fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

O Hotel da Esquina

Um conto da cidade dos sonhos, de exuberantes pantalonas cor-de-rosa em polaroids amareladas


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Ela acordou cedo naquela manhã. Era o final da década de 2000 e era o seu aniversário. Partiu para a cidade com a qual havia sonhado anos antes. Um sonho inspirado em fotos, de pessoas em uma praça, com exuberantes pantalonas cor-de-rosa. Pegou o ônibus às 6h, chegou naquela rodoviária antiga e seguiu a pé. Comprou alguns jornais locais e passou pela ponte, onde havia acontecido, na noite anterior, um homicídio bárbaro. Nos arredores, o estupro de uma menina de 15 anos ainda emanava energias pesadas.

O hotel da esquina era azul e tinha um nome peculiar: Flor de Lótus. Olhou para a tatuagem escondida no bolerinho e pensou: "este é o meu hotel." Guardava a flor de lótus para poucos, assim como as outras flores tatuadas no corpo e a frase que marcou a sua vida, escrita embaixo de uma borboleta negra. O grito da borboleta era seu.

Ainda segurava o cheiro do banho, mas isso logo seria passado. O quarto de hotel era bastante simples e tinha o odor dos anos. Ali, tirou o vestido preto e vestiu-se de nudez, a nudez que tanto negava em todos os segundos de sua vida. Com o auxílio de alguma planta perceptiva, encarou-se e permaneceu em estado meditativo até julgar-se pronta.

Assim, vestiu-se novamente e seguiu para a colina. Absorveu todos os cantos, todas as formas de sobrevivência, onde a violência era o único jeito de receber respeito. A colina, desprovida de saneamento básico, foi uma escola. Quando chegou na baixada, percebeu o contraste entre as culturas. Notou a diferença entre as cores e as classes e desvendou o motivo dos crimes bárbaros, não explicado nos jornais locais.

A cidade dos sonhos, de alameda em alameda, era desvendada. O celular tocava, lembrando que ela ficava mais velha. Não atendia. Tempos mais tarde, o arrependimento: seria o seu último aniversário antes da morte de alguém especial, que tentava felicitá-la naquele dia. Mas, naquele instante, as escadas eram mais tentadoras do que os anos e os desconhecidos eram mais enigmáticos do que os velhos amigos.

Nas casas de madeira, as paredes continham histórias tristes, de mulheres à espera de bastardos que jamais superariam a dor da rejeição. Na beira dos rios, mães seguravam seus bebês, pensando em suicídio. A cidade era um buraco negro, do qual saía um bafo quente de desespero. Ela, também bastarda, ficou com o gosto do suicídio na boca por toda a vida. Desde que foi concebida, em um Maverick setentista, até o leito de morte, em uma cama quente, tomada pelo câncer e pelas lembranças de euforia.

Daquela viagem, guardou os recortes de jornal e o motivo dos crimes, encontrado no lado mais pobre da cidade. Nunca mais voltou, em vida, ao hotel da esquina. Moradores daquele canto do mundo ainda dizem ver uma moça nua e translúcida andando pelos corredores. Ela deve ter assumido a nudez que tanto a amedrontava em vida, em um suspiro de alforria e lucidez.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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