fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Quem vive de passado sou eu

Porque o passado não é privilégio de museu, nem a vaidade privilégio de Leão


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Ontem à noite dediquei a minha insônia ao passado. Revivi todos os meus passos, todas as minhas fases, todos os elementos que fizeram eu chegar até o dia de ontem. Descobri que a minha memória não estava assim tão ruim quanto eu imaginava. Descobri que o cérebro humano guarda mais histórias do que se possa contar.

E foram tantas. Tantas cidades e casas diferentes e até a mesma cidade e a mesma casa, com histórias completamente distintas. Cada época, recheada de bons e maus momentos, guardo nesta caixa de memórias, que talvez ninguém jamais conheça, além de mim.

Para quem fez parte de cada época, uma sensação que deve ser diferente da minha. Nunca imaginei que, em apenas 29 anos, tantas passagens poderiam ser registradas. Foi uma espécie de regressão consciente, que me mostrou o quanto mudei e o quanto ainda permaneço a mesma em alguns detalhes.

Hoje uma amiga me disse, mas não com estas palavras: “Fabi, você ainda é a mesma menina insegura de sempre.” Sim, sempre fui insegura e ainda sou. Sempre andei em um chão muito frágil que, se quebrado, leva à rejeição. Hoje um amigo me disse, mas não com estas palavras: “Rejeição é um gosto amargo que experimento todos os dias.” Ah, cara, eu também!

Já experimentei de tudo ou quase tudo e, por vezes, me sinto uma velha caquética, toda atrapalhada, sem saber como levar a vida. Mesmo assim, a levo nos ombros e guardo os melhores momentos nesta sala de cinema que chamam de cérebro. De quando em quando, encanto; de quando em quando, desencanto.

Assim como não julgo bem algumas pessoas, também não sou bem julgada. Não sei o que as pessoas guardam sobre mim. Tentei sempre ser melhor, mas nem sempre consegui. Ao longo de quase 30 anos, passei por alguns pecados capitais. Uns fui deixando de lado pouco a pouco; outros não conheci; e alguns ainda me acompanham.

A gula ainda é uma malvada persistente, a avareza não conheço, a luxúria teve o seu capítulo, a ira surgiu intensamente algumas vezes, a inveja também, a preguiça não se cansa de bater ponto e a vaidade chega, parte e retorna, sempre sutil, mas incisiva.

Quem vive de passado sou eu, porque ninguém é sem passado. Ele não está confinado em museus ou no Sol em Câncer: o passado é o que te fez, é o que você é. Quem eu sou? Não sei. Esta pergunta é filosófica e leonina demais para quem não queria falar de si mesmo, mas falou. Ah, vaidade. Você por aqui outra vez?!


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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