fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Crônica de uma cidade partida

O morro é um céu estrelado mais perto do inferno, onde a nobreza não quer correr o risco de pisar


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Uma versão moderna da princesa e o plebeu e até de Romeu e Julieta. Assim, defino “Era Uma Vez...”. Filme brasileiro de 2008, o drama romanceado mostra que quem nasce no morro, tem poucas chances de sair dali vivo.

No início do filme, Beto, um talentoso jogador de futebol do Cantagalo, é massacrado por Café Frio, que trabalha para o dono do morro. Logo, Beto é morto e o irmão Carlão, rapaz trabalhador, é expulso de casa pela mãe, Bernardete, para “fugir do perigo”. Carlão vai morar na praia, começa a ganhar a vida como flanelinha e depois como vendedor de cachorro-quente.

Carlão, para tentar impressionar as meninas da praia, deixa o carrinho de cachorro-quente com o irmão menor, Dé. O menino havia roubado de um mercadinho um revólver. Carlão viu e guardou a arma em sua mochila. No meio da confusão, a polícia do Rio julga que Carlão está envolvido no arrastão e o confina na cadeia por longos anos, onde mata para sobreviver.

Dé cresce e vai trabalhar em um quiosque de cachorro-quente na mesma Ipanema onde o irmão foi preso. Do quiosque, observa uma menina que mora em um luxuoso prédio à beira mar, Nina. Ele a ajuda após um desentendimento com o namorado, tenta se aproximar e, finalmente, recebe um beijo. Porém, mente sobre o seu endereço e sua profissão. Mas, a mentira é descoberta, já que um rapaz que frequenta o quiosque, por inveja e maldade, avisa a menina sobre a real situação de Dé.

Mesmo assim, apoiada por uma prima, Nina se rende aos encantos de Dé e eles começam a namorar. O pai de Nina, Evandro, é contra, mas dá uma chance para o príncipe do Cantagalo. Dé suporta a humilhação por conta da sua situação e o pai volta atrás, exigindo que a filha se distancie dele. Em partes, por conta da volta de Carlão, que foge da prisão e desbanca o atual chefe do morro, Café Frio. Com sangue, marca o seu retorno e se torna uma espécie de rei do Cantagalo.

O pai de Nina diz que vai levá-la para a Europa. Ela nega mentalmente a proposta e planeja começar uma vida nova ao lado de Dé no Nordeste. Após a festa de despedida dos dois no morro, Nina é sequestrada. Evandro, ao receber um pedido de resgate, crê que o sequestrador é Dé e manda por a foto dele no jornal, seguindo desnorteado para o morro. Dé é avisado pela prima de Nina que ela foi sequestrada. Dé fala com o irmão sobre o fato e percebe no chão da casa uma joia de Nina. Descobre o paradeiro da amada e ameaça o irmão, que precisava arrumar dinheiro rápido para se livrar da pressão de bandidos e policiais, por ter conseguido o comando do morro. Dá um tiro em Carlão e parte com Nina, a pedido do irmão.

Quando os dois chegam em frente ao prédio de Nina, resolvem pegar um dinheiro que Dé guardava no quiosque. Percebem que a imprensa e a polícia minam o lugar. Dé e Nina se trancam no quiosque e decidem que o melhor é Dé usar a arma para proteger os dois. Em uma deixa, a polícia, posicionada em um dos prédios luxuosos, alveja Dé no peito. Nina pega a arma e atira para todos os lados. A polícia atira em Nina, que cai sem vida ao lado de Dé.

O que se pode perceber é que, de forma objetiva, quem nasce no morro ou é morto por quem manda, ou se corrompe ou leva o estigma de “gente do morro” por toda a vida. Além disso, é possível observar claramente o foco da imprensa em quem tem dinheiro, já que a mãe de Dé perdeu os três filhos e não teve nenhuma atenção por conta disso. Quem está aí para proteger, erra o alvo o tempo todo e inocentes morrem pela mão da polícia ou pela mão do bandido, que muitas vezes se confundem. Não há muita chance para quem vive no morro, esse céu estrelado mais perto do inferno, onde a nobreza não quer correr o risco de pisar.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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