fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Saliva escrita das 2h

Lembrando a edemomania dos tempos de estrada, enquanto curto os cantos que me acolhem depois de toda a euforia


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Houve um tempo em que eu só queria sair de onde estava. Talvez, movida pela saudade, já que “a saudade é a nossa alma dizendo para onde ela quer voltar”, como diria Rubem Alves. Sair do trabalho, sair de casa, sair do corpo, sair da família, sair dos círculos, sair do sério. Pensava tanto em sair que a minha alma já tinha fugido há tempos. O único lugar em que eu não estava era onde eu deveria estar.

Ecdemomania, o tal “impulso mórbido, ou obsessão, em viajar ou passear” ou ainda o “desejo compulsivo de perambular longe de casa ou do lar, fugir de casa.” Minha obsessão: ser uma desconhecida em uma cidade desconhecida; uma estranha em uma cidade estranha. Até hoje não entendo tamanha vontade. Do que eu estava fugindo? Dar adeus ao lugar que te acolhe, tentar tudo de novo, começar do nada, tudo isto me encantava. Hoje, já coloco milhões de razões na frente do desejo. Hoje, na porta dos 30, o que se quer é ficar em casa, curtir o canto. Eu mudei.

É tão difícil encontrar um espaço confortável nesta vida, pessoas que te dão valor, que penso mil vezes antes de promover o abandono. Minha casa, tão minha desde a infância, tem em cada canto um pouco de mim. Um porto seguro que sempre acolheu o meu cansaço, as roupas sujas de estrada e os calçados cobertos de poeira.

O meu canto no mundo é o lugar onde mais tempo consegui ficar. É como se o oxigênio aqui fosse quase inesgotável e, quando não é, saio para passear com o cachorro como nos velhos tempos. Admiro o silêncio dos cães: eles conseguem ser os melhores amigos sem pronunciar nenhuma palavra. E como eles foram doces quando achei que não tinha mais nada a dizer. Eles respeitaram a minha parada e desbravaram o silêncio comigo, sem cobrar nem nada.

Depois, a voz voltou. Já queria falar e estar de novo em qualquer lugar que fizesse sentido. Dentro de mim, foi o lugar mais significativo que encontrei. Seres humanos têm vastos universos, por vezes incompreensíveis, por vezes pintados de contradição. Nos últimos tempos, tenho absorvido madrugadas. Enquanto procuro um pouco de quietude, costumo me perder no feroz efeito do café preto. Não chamaria de insônia, apenas um ímpeto de amar madrugadas. Minhas manhãs assassinadas pelo sono são compostas por sonhos que já não lembro.

Todos os dias, uma rotina boa me pega pela mão. Tive a sorte de encontrar pessoas com uma energia parecida e perfumo os dias com um pouco de tudo. Ainda moro no mesmo lugar, tenho um colo quentinho que envolve meu corpo que não estampa revistas, um mundo de pessoas repletas de defeitos que me amam (e que eu, também repleta de defeitos, as amo), amigos de quando em quando, alguns sonhos nas mãos e uma mente que tenta cavalgar sã e salva.

Ainda toco a magia com os dedos em tinta, ainda reúno os quatro elementos para viver em paz e ainda tenho um peito preenchido de saudades. Mesmo assim, consigo ver a beleza torta do mesmo lugar. Já não uso nanquim e sim plasma para criar meus espirais e olhos negros, mas ainda crio. Do calendário, tiro algum proveito. E, a cada virada de página, sinto as estações dançarem nas veias, maturando o sangue e o transformando em um bom e velho vinho com porcentagens infinitas de experiência.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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