fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

“Existe algo a mais que a gente não nota”

Histórias da Segunda Guerra Mundial, do antigo Circo Cruzeiro do Sul e da Era de Ouro do rádio contadas por Peragi Paimel, o artista autodidata dos moldes que recebeu a profissão como uma dádiva


Colaboração: Gesélio Catalan

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Um senhor de nome incomum, com muitas histórias para contar. Assim, é Peragi Paimel. Beirando os 76 anos, o gaúcho de Gaurama veio para Chapecó aos três anos de idade, no ano de 1940. Nascido em 16 de setembro de 1937, Peragi acredita que o seu nome deveria ser Peragibe, um nome indígena que significa “braço do peixe”, que ele não possui por conta de um erro de cartório, nos tempos em que nem mesmo as máquinas de escrever eram comuns.

Ironicamente, ele ama pescar e foi na pescaria que encontrou um senhor de nome Peragibe, que o chamava pelo mesmo nome. Um amigo que certo dia ouviu dizer que o outro “Peragibe” havia morrido, ficando profundamente triste. Mal sabia ele que o amigo estava vivo, já que outro homem, de mesmo nome, é que havia morrido e não ele, que surgiu formoso em um “caico” diante do quase xará, emocionado ao ver Peragi de novo, são e salvo. “Ele me viu e ficou muito faceiro. Ele chorou de felicidade, pra você ver como amizade é coisa séria.”

A Segunda Guerra Mundial ficou gravada na memória de Paimel por conta de um cartaz, que ficava no “bodegão de pouso” de seu pai. Era um cartaz de um soldado caído, lembrado por Peragi nos mínimos detalhes. A guerra acabou com foguetório na pequena vila, a qual viria a ser a Capital do Oeste. Um tempo em que falar alemão, italiano ou polonês era proibido, sendo que os contrários à regra eram perseguidos por policiais, como conta Paimel.

Moldador, artesão, artista. Paimel não sabe ao certo o que ele é. O fato é que a profissão surgiu ainda quando ele era criança. “Existe algo a mais que a gente não nota”, revela. Para ele, é através deste “algo a mais” que a profissão surge. Quando pequeno, ficou tentado a pintar um anjo e todos os dias ia visitá-lo, na expectativa de poder pintá-lo. Esse dia finalmente chegou e, logo, Paimel se tornaria um exímio artista, colorindo e gravando em cimento a sua história de vida.

Boa parte desta história está na casa de Paimel, na Rua Mônaco, 240D. No final da Nereu Ramos, antes do Ecoparque, bem em frente ao Império das Máquinas, o autodidata guarda relíquias em cimento. Um ofício minucioso, que exige a habilidade de compreender o negativo dos objetos para que os moldes sejam feitos. Paimel acredita que o jeito para os moldes é herança do avô materno, que fez do zero a casa de sapê da família, de forma bem artesanal, tendo se tornado uma casa centenária.

Peragi é fruto de uma família circense. O avô paterno e o pai fizeram parte do famoso Circo Cruzeiro do Sul e a mãe largou tudo para seguir a vida mambembe. Dos pais, Peragi recebeu a dádiva das artes. Um quadro na parede da casa dos Paimels não me deixa mentir: lá está uma das primeiras fotos tiradas por Vitorino Zolet, de uma dupla conhecida como os Irmãos Paimel, composta por Sertãozinho e Tibagi – nome artístico de Peragi. Os dois cantaram por 25 anos na rádio mais antiga da cidade, a Rádio Chapecó. O bom partido logo encantou a dona Noeli, com quem – a exemplo dos pais, Avelino e Alvina –, constrói uma história de amor digna de cinema, que já dura 52 anos. “Não ficamos por mais de 20 dias longe um do outro”, conta Paimel.

Com a mãe Alvina, Peragi também aprendeu o jeito para o artesanato. “Ela pegava pedaços coloridos de louças quebradas e colava – com cola caseira de farinha – cada pedacinho em vasos de argila.” Deslumbrado, Peragi absorveu o dom da paciência e com ele segue até hoje. Em todos esses anos, Paimel nunca recusou serviço. “Bem ou mal, eu sempre fiz o que tinha que fazer. E ninguém, em todo esse tempo, me chamou de feio”, brinca o artista, que tem criações espalhadas pelos mais diversos cantos do Oeste de Santa Catarina.

interna 1.jpg Crédito: Vitorino Zolet


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