fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Para voltar a gostar de literatura fantástica

Sujar os dedos de tinta é a ordem deste filme fantástico, que inspira as novas gerações a encontrarem os personagens clássicos da literatura


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Ver "Coração de Tinta - O Livro Mágico" me levou de volta à adolescência. Senti como se retornasse a uma biblioteca visitada aos 16: a Biblioteca do Farol, em Curitiba (PR). Lembro-me que era domingo, um dia que comumente me amedrontava. Fugi para a biblioteca fechada e fui recepcionada por um guarda, muito gentil, que me ofereceu café requentado. Ele me deu conselhos e me deixou ficar por lá, em meio a almofadas confortáveis como nuvem, de estampas amarelas com sois e luas, e a histórias fantásticas. No silêncio da biblioteca escurecida, vazia de movimento, senti algo tão bom, como se milhares de esferas da energia mais pura preenchessem o lugar. Anotei receitas mágicas e li partes de "As Flores do Mal", de Charles Baudelaire, debaixo de uma árvore.

"Coração de Tinta", livro de Cornelia Funke, baseou o filme do ano de 2008, ano de outra obra fantástica: "As Crônicas de Nárnia". Dois anos antes, era lançado outro filme que segue a mesma linha: "O Labirinto do Fauno". São filmes que encantam as novas gerações, já familiarizadas com a fantasia apresentada por Harry Potter e Frodo e mais afastadas da fantasia de filmes como "O Jardim Secreto" e "Labirinto – A Magia do Tempo", com David Bowie e a então menina Jennifer Connelly, que em "Coração de Tinta" faz Roxane, pincelada de seu encanto surrealista, sendo a esposa de Dedo Empoeirado, interpretado por Paul Bettany.

O filme ganha uma carga de magia extra com a presença de Brendan Fraser, que interpreta o pai Mortimer Folchart. Fraser também protagonizou o fantástico "Viagem ao Centro da Terra" e dezenas de outros filmes, desde o início de sua carreira, no ano de 1991.

"Coração de Tinta" traz o prazer da leitura fantástica e atenta para o poder da palavra escrita, sendo que os personagens ocupam lugar real no mundo, um mundo literário mais concreto do que se possa imaginar. Um filme para se ver com a família, já que traz desde personagens mais jovens, como Meggie Folchart (Eliza Bennett), até personagens mais experientes, como Elinor Loredan (Helen Mirren). É a volta ao sonho, é a volta ao apreço pela literatura fantástica, que encanta multidões desde os tempos mais remotos.

Inspira as novas gerações a não somente lerem livros fantásticos como também a escreverem as suas histórias, lembrando da grande responsabilidade de ser escritor - uma atividade solitária e imersiva, vivida nos confins pelo escritor Fenoglio (Jim Broadbent). O autor que pôde deparar-se com os seus personagens, no auge de seus defeitos mais profundos, e desaparecer, por desejo próprio, no mundo criado por ele, despedindo-se da vida, por hora enfadonha, de um escritor de antigos impulsos.

A história traz personagens clássicos da literatura, como Totó, o cãozinho de Dorothy em "O Mágico de Oz", livro que transformou-se em filme no ano de 1939. Por essas e outras, "Coração de Tinta" promove o retorno maravilhoso às almofadas de biblioteca, ao desejo de colocar o nariz entre os livros e de viajar, viajar intensamente neste mundo mágico da imaginação, da leitura e da escrita, enfeitadas de surrealismo e encanto.

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fabita

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