fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Sob o efeito do rum

"Diário de um Jornalista Bêbado" e a San Juan de uma janela menos falsa, vista pelos olhos do pai do Jornalismo Gonzo


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Jornalistas são intensamente representados no cinema, porém, com uma boa camada de glamour. É o caso do repórter do Planeta Diário, Clark Kent, que não faz nada no periódico mas, estranhamente, não é demitido. Kal-El usa o jornalismo como pretexto para ser o Super-Homem, já que Kent é apenas um disfarce, o oposto do herói. Ambos, apaixonados por Lois Lane - a intrépida repórter do PD. A história em quadrinhos, criada por Jerry Siegel e Joe Shuster, cujo personagem principal nasceu para ser vilão, pouco tem a ver com uma outra história: "Diário de um Jornalista Bêbado", de Hunter S. Thompson.

Peguei o livro na mão no final do Curso de Comunicação Social - Jornalismo e o usei para a elaboração do Trabalho de Conclusão de Curso (TCC) que fiz sobre o "Jornalismo Gonzo". Tenho que admitir que o livro, na época, não me empolgou muito. De qualquer forma, estava louca para ver o "Diário de um Jornalista Bêbado" no cinema.

Foi em uma madrugada de sábado que finalmente vi aquele esplêndido filme de 2011. Difícil de esquecer, "Diário de um Jornalista Bêbado" é um filme que mostra um jornalista que em nada tem a ver com a maior parte dos jornalistas representados no cinema. Paul Kemp é um anti-herói, que tem bastante do próprio autor, Thompson. Kemp vai trabalhar na "Estrela de San Juan", Porto Rico, um lugar definido pelo amigo (o memorável Bob Sala, interpretado por Michael Rispoli) como alguém com quem acabou de transar e ainda está embaixo de você. O amigo e colega, mais tarde, transforma em pó os planos dos magnatas da cidade, por ou sem querer.

Mas, para quem pensa que a história é apenas rude, se engana. "Diário de um Jornalista Bêbado" e o próprio Kemp têm um cantinho romântico e um final feliz. Kemp é vivido pelo grande fã de Thompson, Johnny Deep, que já protagonizou "Medo e Delírio", de 1998. Em ambos os filmes, pinceladas das viagens alucinógenas descritas por Thompson, o homem que ficou conhecido por ser antissocial e ter se infiltrado nos Hells Angels.

Com os dois filmes, principalmente com o último, o Jornalismo Gonzo ficou mais conhecido. É praticado hoje em todo o mundo, inclusive no Brasil, onde é bastante famoso. A escola, criada por Thompson, finalmente ganha mais adeptos, embora tenha nascido pouco depois da segunda metade do Século XX. Filmes como o "Diário de um Jornalista Bêbado" mostram nuances de uma realidade mais aproximada vivida por jornalistas, vistos sob uma ótica mais humana e menos engomadinha, bem longe daquela ótica apresentada nos jornais da TV brasileira em maior parte da história.

Kemp foge da proposta do editor Edward J. Lotterman (Richard Jenkins) de fazer horóscopo, das fotos posadas e vai além: vive o jornalismo e a literatura, aposta na sua verdade, vívida aos 25 anos. Neste ínterim, o desejo de publicar um jornal carregado de verdades, algo incomum em todos os lugares até hoje, surge com todo o fervor.

A aventura em Porto Rico rende a ele uma nova vida em Nova Iorque, ao lado da sua bela Chenault, personagem interpretado por Amber Heard, a loirinha que se joga em uma armadilha perigosa - um tumulto de homens sedentos por sexo em um carnaval - e sai praticamente ilesa. O fato faz com que o espectador imagine que Chenault sabia bem o que estava fazendo: livrar-se das garras do noivo nobre, Hal Sanderson, vivido por Aaron Eckhart, para ficar com Kemp.

Um filme para se ver várias e várias vezes, com recortes de paisagens pouco vistas pelos turistas de Porto Rico, que enxergam apenas retalhos paradisíacos da San Juan, das janelas de hotéis que não contam metade das histórias de um Paul Kemp, mergulhado nas águas não tão azuis daquele canto do mundo.

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