fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

30 novembros


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Houve um tempo em que você foi o bebê mais novo da família ou talvez a criança mais nova da turma. Em cada época de sua vida, acreditou na modernidade de seus badulaques. Pensou, por algum tempo, que jamais envelheceria, que jamais morreria. Nas lápides antigas, os anos que não viveu lhe pareciam longínquos demais. Fez amigos ou achou que fez, se apaixonou milhares de vezes, amou poucas. De repente, aos 30, nota que o tempo voou. Logo, você se perde entre os adultos da família, já é velho para ter turma e os badulaques se mostram ultrapassados. Já tem a certeza de que está em processo de envelhecimento e de que a morte é tão certa quanto o sol. O ano em que nasceu, um dia, será longínquo a ponto de causar espanto em um espectador de lápide. Você percebe que amigos são joias raras e que outros apenas têm brilho falso, apenas o verniz, que esconde intenções nada nobres. As paixões ficam desimportantes e o amor é o sentimento que te oferece o chão. Alguma marca deixará no mundo, nem que seja suave como uma brisa. Poucas pessoas te conheceram de verdade. Muitas conviveram, mas não te amaram. Outras pouco conviveram, mas a tua existência foi suficiente para que elas te amassem. Independente das falácias e das manias, ficam os feitos, os exemplos e as artes. Quando você brincou de Deus e criou, criou e criou enlouquecidamente, um pouco disso fica. A energia que emanou, um pouco dela fica. O mistério não desvendado da tua existência, há de ficar de herança. O espírito verá a morte dos impérios e a morte dos egos. O corpo, não. O destino é o mesmo para os invólucros, independente da auto-importância. O ser humano, que se coloca no topo da cadeia alimentar, no fim, se torna comida para o mais vil dos animais. E não há como negar que há uma lição nisso tudo.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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