fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Do tempo em que silo era lugar de arte

Embrião do Centro de Cultura e Eventos, silo, aos fundos da Getúlio Vargas, deixa na paisagem resquícios de uma luta que ainda não terminou


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Entre a Getúlio Vargas e a São Pedro, o resquício de um tempo nem tão distante pode ser visto pelos menos desligados. Lá no alto, em um silo, está escrito em azul desbotado: Projeto Centro Cultural. O silo é uma espécie de embrião do Centro de Cultura e Eventos Plínio Arlindo De Nes, segundo Jovani Santos, da Companhia Voeverá de Teatro. Ele, ao lado de tantos outros nomes – que possivelmente ficarão na história de Chapecó –, como Mari Bet e Xiko Bracht, fez parte deste momento da cidade, que foi o Projeto Centro Cultural e a Fundação Teatro do Silo (Funtesi).

O encontro foi marcado no Café Brasiliano, um lugar conhecido pela reunião de artistas da terra, ainda que não tenham nascido em solo chapecoense. Capuccino, água mineral, leitura e, depois de algum tempo, a visita dos três artistas. As perguntas prontas ficam de lado. Afinal, a espontaneidade deve ser uma das virtudes da arte. Voltamos ao ano de 1995, quando espaço cultural era ainda um sonho distante e o silo acabou sendo a opção escolhida para a montagem de um espetáculo teatral.

“Estávamos em busca de um espaço para a montagem de uma peça chamada ‘Labirinto de Januário’, de Ilo Krugli. Nós vínhamos de uma outra montagem, ‘O Incêndio’, feita em um terreno baldio, nas ruínas de uma casa. Visitamos o antigo silo, que tinha umas colunas que davam a ideia de um labirinto. Queríamos montar uma instalação de teatro, onde as pessoas pudessem acompanhar o espetáculo andando pelo lugar.”

Depois disso, o velho silo foi visto com outros olhos: um lugar permanente, lar do Projeto Centro Cultural da Funtesi. Silvério da Costa, com a sua compreensão poética da vida, foi com quem Santos conversou sobre a ideia. Em um tempo em que se falava muito sobre a falta de um espaço cultural, o silo se tornou uma boa ideia. Da carência, o espaço foi constituído, dando abrigo às atividades ligadas ao fazer artístico.

Artistas atuantes, em cada área, foram escolhidos a dedo. “Mas sem ligação com o setor público”, ressalta Bracht. “Não queríamos pessoas com ligações políticas”, complementa Santos. “Queríamos artistas batalhadores, com trabalhos renomados”, continua. A partir de então, um conselho foi formado. Surgia a primeira diretoria do projeto, que até então não tinha nome. Com o interesse da mídia, o apoio arquitetônico começou a surgir. Assim, a diretoria passou a discutir com o Poder Público a viabilização do silo das artes. “A nossa ideia não era individual. A ideia era ter um espaço para o município”, fala Santos.

Por cinco anos, o silo recebeu investimentos dos artistas, principalmente do tipo mais precioso de investimento: o de tempo. Algo que não se pode medir, na visão de Mari, que acompanhou tudo de perto. O esposo Santos esteve envolvido por mais tempo no silo: oito anos. “No caminho, as pessoas desistiram. Mas posso afirmar, com todas as letras, que a construção do Centro de Cultura e Eventos é o resultado desse trabalho, dessa equipe. Foi essa luta que colocou o assunto na pauta política. Ao contrário do que dizem, aquilo não deu em nada. Aquilo deu em tudo.”

Em consenso, dizem que pode cair a cidade, mas o silo não cai. Um lugar fechado hoje em dia, mas que deixa na paisagem um sinal de luta, a luta dos artistas por um espaço digno. Entretanto, para quem pensa que a luta chegou ao fim, se engana. “Há uma luta de 30 anos por trás do Centro de Eventos. Pessoas foram às ruas, fizeram panelaços, para que isso fosse garantido. Só que a luta não estancou aqui”, afirma Santos. A recompensa? Pouco material. Entrar para a história há de ser a maior recompensa, como aposta Bracht.

Metas da cultura:

- Plano Municipal de Cultura; - Fundo Municipal de Cultura; - Novos equipamentos para a área cultural; - Estrutura própria para os ambientes culturais; - Editais de fomento às atividades artísticas; - Leis que reconheçam os artistas da cidade.

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fabita

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