fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Teias que caçam sonhos

João Batista Antunes preserva hábito de fazer artesanato. Algo que aprendeu com a mãe, dada aos trançados da cultura indígena


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Um filtro dos sonhos protegia a varanda de uma casa repleta de pessoas na tarde quente de quinta-feira, dia 16 de janeiro. No Toldo Chimbangue, acontecia um manifesto naquele dia. Lá, o artesanato tornou-se pouco comum e aquele círculo colorido que também enfeitava a varanda é quase um objeto em extinção.

Segundo o site Spiritual Network, as teias que caçam sonhos, mais conhecidas como filtros dos sonhos (ou dream catcher, em inglês), ornadas de contas e de penas, chegaram ao Brasil por meio dos Estados Unidos da América. Quase todas as tribos de índios americanos já os incorporaram às suas tradições e as lendas sobre os filtros correm por toda a parte. A história dos filtros começa com os índios Ojibwe (ou Chippewa).

“O filtro dos sonhos, como ficou conhecido em português, na verdade, não é um filtro, é uma teia. Os Ojibwe acreditam que, quando a noite cai, o ar se enche de sonhos, bons e ruins. Alguns desses sonhos, mesmo sendo pesadelos, podem conter uma mensagem importante do Grande Espírito para nós. Então, na verdade, esses sonhos são bons sonhos. Mas existem muitos outros sonhos e energias ruins flutuando à nossa volta e que não são nossos. Esses é que podem nos fazer mal. É justamente para separar esses sonhos e energias ruins que existem os dream catchers.”

Feito pelas mãos de João Batista Antunes, um professor de Língua Portuguesa e Artes e artesão indígena, o filtro dos sonhos é um dos objetos que ele aprendeu a fazer ao longo da vida. Desde criança, o artesanato faz parte da sua rotina. “Acompanhava a minha mãe fazendo trançados”, conta Antunes, que diz trabalhar no processo de “resgate” do artesanato na comunidade. Para ele, o filtro está conectado à capacidade das pessoas acreditarem em seu poder. “É um adorno que também serve como proteção contra as forças negativas”, explica.

O professor e artesão,de 34 anos, trabalha com os alunos do Toldo Chimbangue. Porém, no período de férias, ele adota a vida nômade e vende o seu artesanato em outras cidades do Estado de Santa Catarina. O litoral é escolhido, na maioria das vezes, por Antunes. Além disso, o seu artesanato compõe exposições, principalmente na Semana Cultural Kaingang e Guarani.

Além dos filtros dos sonhos, brincos e chocalhos fazem parte da criação de Antunes. Os últimos, muito usados em rituais de danças indígenas. Dar sequência à tradição, para ele, em meio à escassez de matéria-prima, é “resgatar” os antigos valores dos povos indígenas.

Os objetos de artesanato de Antunes, como tantos outros que vemos, não são feitos com elementos propriamente naturais. Muitos desses elementos saem de indústrias. “Hoje trabalhamos de forma mais mista, uma vez que há escassez do material na natureza.” Assim, a mistura entre a natureza e a indústria é o que resulta no artesanato indígena do Toldo Chimbangue, em tempo de luta por dias melhores.

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