fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Depois que encontrei Dionísio

A barba espessa encontra a gola já gasta da camisa apertada pelos anos de abandono. Lá está o homem que o menino jamais conheceu


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Sempre, e isto é, bem antes dos 30, gostei da decadência. A imagem rota me atrai desde os tempos em que eu não era mais do que uma brisa da manhã. Gosto dos corpos, despidos da vaidade, quando se tornam filhos carentes e amorosos, quando a lágrima cai junto do orgulho, quando o abraço é regra e a cara no espelho já não goza mais de seus 20 e poucos anos. Gosto do gosto do fim, quando tudo fica mais poético e sombrio, quando a cova espreita e lembra que os prazeres desse mundo pouco ou nada são.

Gosto de ver a vela queimar, depois de iluminar as noites dionisíacas. Quando as bruxas dançam no telhado da memória e o blues é a única linguagem que se entende e que se pode falar. Gosto dos meses de julho, de todos eles, quando o sol chega mais frio no Sul e cala as vozes cansadas. Gosto dos dias mais frios porque eles carregam em si a renovação. A Morte caminha ao lado, seu cheiro é uma mistura de mofo e parafina. Um jasmim nasce no vão da madrugada. Quando amanhece, já é tarde demais para detê-la.

A barba espessa encontra a gola já gasta da camisa apertada pelos anos de abandono. Lá está o homem que o menino jamais conheceu. Uma pedra lapidada pela dor e pelo cheiro do fim. As luzes da cidade já são antigos lapsos; o gosto de rum já não está mais lá. É hora de partir da cidade e encontrar o escritor que mora do outro lado do oceano. Nos cafés de Paris, estão eles: os renegados, os perseguidos, os exilados. Um doce exílio com gosto heroico.

O fracasso é a opção mais louvável para quem quer viver a liberdade. Nos quartos das casas do subúrbio ou nos quartos baratos de um hotel qualquer, a poesia se faz sem alarde, sem aplausos. Ninguém precisa conhecer a poesia do fim. Existir, para ela, basta. Como uma boneca esquecida no fundo do baú, como uma velha mortalha em um jazigo cinza. Não há anjos à espreita, apenas estátuas sem alma.

Em uma noite quente, no Norte, ele se foi. Barba longa entupindo o ralo, o rosto de menino surgiu. Olhos claros vidrados no teto, desenhando de morte o roteiro de seu último filme.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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