fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Feliz de quem vive a sua verdade

A certeza ultrapassou o Bloco B, ultrapassou as ruas planas de Brasília e as linhas que separam todos os estados do País. Ultrapassou as fronteiras dos países e chegou ao ponto mais alto que um artista pode chegar: a imortalidade


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É uma emoção indescritível deparar-se com quem vive a sua verdade. E feliz de quem vive a sua verdade. Em “Somos tão Jovens”, o Renato Russo de antes, tão ou mais inspirador do que o Renato Russo dos anos de 1990. Um amigo próximo, que pede pouso na sua casa, um cara que sabe conversar, passar a noite em claro, usar o que aprendeu.

Ele viveu a sua verdade, seja punk ou rock de Brasília. Russo cantou a música urbana, a poesia contemporânea. O choro não é suficiente quando a emoção chega. O que ele fez foi acreditar e tornou-se simplesmente o maior nome do rock no Brasil. Viveu o seu tempo e, nas marcas perdidas pelo corpo, escondidas pela barba espessa e pelas lentes, extravasou mais experiência do que a idade pôde contar.

Quantos de nós não vivemos a sinceridade? Ele escolheu não fazer o que não queria. Uma dose de arrogância, sim, e outra de egocentrismo, tudo bem. Mas ele não queria ser um magnata, não do jeito que a família esperava. Foi, sim, um grande homem, um homem de letras, um trovador solitário, que pegou toda uma geração pela mão e trocou as ideias mais íntimas.

Ele falou direto ao coração, embalado por poucos acordes. Acreditou mais do que qualquer um, não pensou que daria errado. A certeza ultrapassou o Bloco B, ultrapassou as ruas planas de Brasília e as linhas que separam todos os estados do País. Ultrapassou as fronteiras dos países e chegou ao ponto mais alto que um artista pode chegar: a imortalidade.

Filho da revolução, ovelha desgarrada da geração Coca-Cola e do tédio da vida comum, Russo é o tapa na cara no antro da corrupção. Nas barbas do governo, nasceu, nos anos de 1980, quem falou o que tinha que falar, sem nenhum tipo de censura. Era a morte da ditadura. Era a hora de rabiscar a sua história no recibo do aluguel. Onde foi parar o molde sem forma que fez Renato?

Só vejo poesia rala, imitações baratas e sonhos desfeitos. Para onde foram os que viveram a sua verdade? Para onde foi o rock do Brasil? Aquele, que contestava sem rodeios, aquele rock inteligente, feito de filosofia e literatura? Renato era único. Sobraram os cigarros, as cervejas e o verniz. Faltam os grandes ícones, levados pela doença sem cura.

Feliz de quem vive a sua verdade. Feliz de quem canta a voz do coração sem ser piegas. Renato Russo vive na voz que ficou gravada, nas camisetas que levam o seu rosto, na alma de quem ainda o ama. E as próximas gerações, conhecerão a música urbana, as letras sem apelo comercial e o sonho dos anos de 1980 e 1990? Não sei. O que posso dizer é que música boa dura mais, muito mais, do que um único verão.

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fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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