fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Encanto que mora no campo

Dionísio Batistello nasceu há 87 anos por um simples motivo: ser feliz e nada mais


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Em semicírculo, a placa diz que ali mora a Família Batistello, sobrenome que também está no nome da linha, localizada no interior de Chapecó. A propriedade na Linha Batistello é quase uma pequena vila. Ali, palavras em tinta e placas entalhadas indicam escritório e borracharia. Ali, as pessoas trabalham enquanto convivem com os animais, em meio aos pomares e às flores.

Chegamos na propriedade dos Batistellos por conta de uma suposta plantação de tabaco, motivo que ficou para trás em poucos instantes. Quem nos recebe é alguém que leva o nome de um deus: Dionísio, o Deus do Vinho na Mitologia Grega. Em um primeiro momento, Dionísio, 87 anos, diz algo como: “a cada dois minutos chega um; não me deixam trabalhar”. Mas logo ele se encanta com a presença das visitantes e se lembra de uma outra jornalista, que há algum tempo também passou por ali.

Ele nos convida a entrar em seu escritório, forrado de elementos que marcam quem ele é, e lá está a assinatura da jornalista, a quem Dionísio dispensa especial simpatia. Começa a contar histórias, fazer ligações entre os sobrenomes, falar das longínquas terras do Rio Grande, se emociona e oferece tudo o que há de melhor, escondido no frigobar. Na parede, uma agenda permanente cercada de receptividade: esperando pelos amigos.

Em poucos minutos, somos de casa. Dionísio não apresenta resquícios da antipatia da cidade, com suas distâncias, esquecimentos e friezas. Pouco exigente, se contenta em falar e ser ouvido. Mostra as flores do jardim bem cuidado pela esposa, os animais ao redor e nos convida para entrar na casa. Chama a esposa, que se ocupava com a realidade cotidiana. Descobrimos um parentesco distante e encontramos algumas valiosas lições. “Eu estou nesse mundo para ser feliz”, revela a sua simples e rica filosofia.

Logo, nossas mãos estão ocupadas com sacolas de frutas e os nossos ouvidos são agraciados com o som da gaita, que libera a melodia de “As Mocinhas da Cidade”, de Nhô Belarmino, regravada por inúmeros artistas, como Pena Branca e Fred & Pedrito. Batistello mostra, com pequenas atitudes, que tem dentro de si importantes riquezas, que fazem parte dos antigos homens do campo. Pessoas que lavram a terra e desenvolvem no espírito um poder “extraordinário”, usando a palavra dita pelo próprio Dionísio. “Eu fiz um curso de Parapsicologia no ano de 1975 e depois disso fiquei extraordinário”, conta o agricultor, enquanto mostra o certificado na parede.

O extraordinário em Dionísio pode não ter muito a ver com a Parapsicologia e seus ensinamentos. O lado extraordinário de Dionísio vem de uma sabedoria popular, que parece se perder um pouco mais em cada geração. As mãos calejadas contam histórias, gravadas através de um jeito simples de encarar o mundo, de frente, sem medo. Histórias que mostram o conhecimento das plantas, das estações e da mistura entre e a realidade e o sonho.

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fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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