fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Relato de uma filha da terra

Carminha conta que as mulheres foram para a cidade, mas não esqueceram da enxada e da riqueza dos temperos cultivados na horta


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Com um símbolo camponês na cabeça, o chapéu de palha, Carmem Munarini recebe a reportagem. No peito, a estampa que diz: “Filhas da Terra produzindo sementes crioulas, alimentando sonhos de libertação”. Ali, já se percebe que Carminha, como é conhecida, é dada às lutas, por igualdade, justiça e alimentação digna, sem nada de transgênicos e híbridos, mas do alimento que surge da semente crioula, como no tempo dos seus avós.

Ela vive em uma casa, herança dos pais, que fica em meio ao intenso verde, na Linha Faxinal dos Rosas, interior de Chapecó. Conhecida por todos, Carminha se dedica a casa, bem familiar, aos afazeres como camponesa e à Associação de Mulheres Camponesas da Regional de Chapecó (Amucrech), da qual é presidente. A associação tem aproximadamente 10 anos e, assim como a Associação Estadual de Mulheres Camponesas (AEMC), ganhou diversas batalhas ao longo dos anos.

Há mais de 30 anos, Carminha luta pelas mulheres camponesas. Uma das principais lutas se deu na questão previdenciária. A mulher camponesa não tinha a profissão reconhecida e, diferente do homem do campo, precisava arcar com as despesas de previdência e saúde. Consideradas até então do lar ou domésticas, as mulheres camponesas conseguiram driblar um pouco a falta de justiça, pelo menos nesta questão.

O Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) abrange quase todo o Brasil e é ele que baseia as associações que Carminha faz parte. Em cada município, em média, há quatro ou cinco grupos de bases. Entre as recentes lutas do movimento, está a luta pelo direito de produzir alimentos saudáveis. Algo que, para Carminha, deveria ser direito também das famílias que vivem na cidade, já que o câncer e a depressão – tidos como resultado do consumo do veneno existente nos alimentos de hoje – não são privilégio das mulheres do campo. “Esta tese é importante, é vital”, lança Carminha.

Ao longo de 30 anos, ela percebeu a ascensão da mulher, que hoje ocupa cargos importantes na sociedade. “A formação política que as mulheres recebem no movimento auxilia muitas delas a alcançarem tais cargos. A deputada federal Luci Choinacki, por exemplo, era do movimento. Há inúmeras prefeitas e vereadoras que saíram do movimento, assim como mulheres que trabalham em universidades, ocupando espaços que antes eram masculinos. As mulheres têm demonstrado coragem para fazer parte dos espaços de poder.”

É claro que há muitas batalhas ainda a serem vencidas. O machismo e o pensamento patriarcal ainda permanecem, acompanhados de violência e morte, sem resquícios de piedade. “Não queremos ser mais e nem menos do que os homens: queremos igualdade de direitos. Porque quando alcançamos algum poder, somos oprimidas, violentadas, perseguidas. Há homens que ainda pensam que devemos baixar a cabeça, ficar em casa, obedecer e calar. Somos seres humanos, como os homens, com o mesmo jeito de pensar, trabalhar e agir.”

Para entrar no movimento, basta querer. Não partidário, o movimento trabalha a questão política, sem focar em nenhum partido. São bem-vindas mulheres camponesas ou não que queiram o fim da opressão. Mulheres que, mesmo morando na cidade, conhecem a riqueza de ter uma horta em casa, que cultivam os seus temperos e guardam na lembrança um passado camponês. “A história mostra que muitas mulheres, que moram na cidade, saíram do interior. É como algumas dizem: ‘vim para a cidade, mas trouxe comigo a enxada.’”

Comemorar, no dia 8 de março, não é bem o verbo adequado. “Este é um dia de luta e não um dia de comemoração, de receber flores. É um dia que nos faz lembrar da luta das mulheres nas fábricas, que se manifestaram por conta da busca por melhores salários e por uma vida digna.”


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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