fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Recomeço que vem em dobro

Filho e namorado de haitiana chegam em solo chapecoense. Hora é de deixar o passado para trás e de recuperar tempo perdido


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Em 2011, a mãe Amonise Pierre penetrou em uma noite escura ao deixar o Haiti e vir para o Brasil. Chegou nas terras brasileiras com o filho menor.Porém, o mais velho ficou no país estrangeiro. Foram anos de espera e de luta, até o dia de ontem, 3 de abril. O filho Amcy Owens Pierre, nove anos, e o namorado Garry Pierre, fizeram uma longa viagem, que resultou no reencontro da família. O filho e o namorado de Amonise fizeram mais de um dia de viagem: do Equador para Guarulhos e de Guarulhos para Chapecó, sem contar a viagem do Haiti até o Equador.

Amonise, funcionária da Coopercentral Aurora Alimentos, teve o grande privilégio de ser ajudada. Ontem, ela, o filho e o namorado concederam uma entrevista coletiva, ao lado daqueles que facilitaram o processo de vinda. Entre mais de 400 funcionários haitianos da Aurora, Amonise recebeu todo o apoio da empresa para poder formar a sua família em Chapecó. É a primeira vez que algo assim acontece na Capital do Oeste.

A presidente da Fundação Aury Luiz Bodanse(FALB), Isabel Cristina Machado, a coordenadora do programa “Amigo Energia”,Elizane Caresia, e a gerente da Unidade IACH, Maria Elizabeth Mezaroba, se emocionaram ao ver a família reunida. Para Isabel, a quinta-feira foi dia de mostrar gratidão ao apoio recebido.

Envolvida no processo, Isabel contou que a relação existente entre a Aurora e os funcionários haitianos vai além do trabalho e que os haitianos são “pessoas do bem”, que precisam de ajuda para se estruturarem aqui. “Eles têm a necessidade de reconstruir as suas vidas com dignidade, com o mínimo de conforto. Ver o resultado dos nossos esforços nos dá mais ânimo e determinação para continuar.” Agora, a intenção é conseguir cobertores e roupas de inverno para que os haitianos, acostumados com as altas temperaturas, possam passar tranquilamente pela estação mais fria do ano.

Quando Amonise saiu do Haiti, Amcy tinha seis anos. A distância não impediu a demonstração de carinho entre os dois, que tinham como meio de ligação a internet. Em Chapecó, Amonise veio em busca de serviço e de uma vida melhor, mesmo tendo em sua frente um mar de incertezas. Aqui, ficou dois meses desempregada, até que fez a sua “ficha” na Aurora.

Foi por meio de um evento realizado pela Aurora em abril do ano passado que o dinheiro, usado para arcar com as despesas do processo de vinda dos dois, surgiu. Ela, professora no Haiti, adotou a Aurora como lar e de lá não pretende sair. “Diziam que o povo do Sul era racista. Mas eu não vi nada disto, ninguém sofrendo por causa da cor da pele”, disse Amonise.

Filho e namorado, que vieram dentro da lei para Chapecó – o que explica a espera de um ano desde o início do processo até ontem, assim como o seu alto custo –, serão em breve cidadãos chapecoenses.É um recomeço que desponta e um passado que fica a partir de então onde é o seu lugar: para trás. “Agora, é olhar para frente”, lançou a mãe haitiana, ansiosa para recuperar o tempo perdido.


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