fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Aconteceu em Woodstock

Aqui, não há cercas; só o céu imenso


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Devia ter uns 14 anos quando vi o Festival de Woodstock pela primeira vez. Na época, eram fitas de VHS no Videocassete, nada de YouTube, que só conheci com 22, 23 anos. Emoção carregada de arrepios, a mesma que eu sentia quando via manifestos na TV. Fiz uma cópia para poder sentir, sempre que quisesse, aquele sentimento mais próximo. Logo vieram as calças jeans emendadas, as blusas manchadas de Tie-Dye, as pinturas nas roupas, as bolsas de algodão cru. As meninas do colégio copiavam: tudo vira moda, tudo vira comércio.

Em 2009, participei de uma cópia do Woodstock: o Psicodália. Eu, que naquele momento já havia sido hippie, punk e gótica, me assustei com aquele aglomero todo. Ainda me recuperava da Síndrome do Pânico. Ontem vi Aconteceu em Woodstock. O sentimento de menina voltou com a história de Elliot Tiber. Houve aquela identificação com o moço que, na época, aos 34 anos, fez acontecer o Woodstock de 1969.

No centro do universo, embalado pelo ácido, viu o oceano de pessoas ondular e explodir em energia rosa, no palco. Ele chorou e eu também. Eram milhares de pessoas em uma mesma sintonia. Delírio coletivo, talvez; a mente una, quem sabe. Sei que, em três dias, as pessoas se permitiram viajar para dentro de si mesmas, aproveitar cada segundo como se fosse o último, sentir o mundo mais colorido, mais musical. Amor e paz em altas dosagens, embalados pela Dança do Ausente.

O filme traz o festival visto de dentro, do ápice à decadência do lixo e da destruição. O comércio rolando solto diante de uma febre hippie. O Woodstock foi um dos eventos mais memoráveis da História e a Era de Aquário ainda é promessa para alguns. Na década seguinte, a Era Disco mostrou que ainda era possível se divertir, mesmo na Ditadura Militar brasileira. Com Dancin’ Days e Stayin’ Alive, nações inteiras dançaram e se sentiram incluídas novamente.

Eu nasci na Ditadura, no ano de 1983, apenas 14 anos depois da revolução de 1969. Sou filha da revolução e da Nova Era. Cresci ouvindo falar em Astrologia, no poder da energia, na Lei do Retorno. Sou filha de uma pílula que não foi tomada na hora exata. Já eram outros tempos, era tempo de liberdade, ainda que vigiada. Mas nunca, até hoje, se viu um festival como aquele, bem retratado no livro Taking Woodstock: A True Story of a Riot, a Concert and a Life de Elliot Tiber e Tom Monte, que deu base ao filme.

Até hoje buscamos a liberdade de ser o que quisermos ser, mesmo que seja dona de casa. A liberdade de um sistema talvez vivido pelos egípcios que, dentro da pirâmide, podiam ser o que quisessem ser, sem opressão e sem nivelações, por cima ou por baixo. Filha e neta de agricultores, ainda busco a paz do campo e a sabedoria das plantas, em um intento de voltar ao início. Sou casada com um neto de uma filha da natureza, uma curandeira que não teve para quem passar o que sabia. Sinto vontade de invocar os antepassados, despertar a mente, equilibrá-la com a emoção, o corpo, a alma e o espírito. Heranças deixadas, quem sabe, por aqueles que realmente viveram e sabiam o valor da terra.

O que são três dias na vida de alguém? Talvez não sejam muito. Mas, para a História, três dias de agosto de 1969 valeram por três séculos ou mais. A noção de tempo era outra, era hora de despertar, de libertar os demônios da opressão, de andar sem destino, com lama no corpo e na roupa, sem pensar que a vida era séria ou dura. Aqueles jovens viveram o sonho e o sonho não acabou, como disse John Lennon. O sonho ainda está aqui, no âmago dos seres, esperando pela hora de ser vivido. Aqui, não há cercas; só o céu imenso.

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fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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