fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Eu tenho um mofo no lugar do coração

Apostou no que diziam os pêndulos e os mais vendidos


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“Eu tenho um mofo no lugar do coração”. Uma amiga sempre fala isto. Ela ganhou um anel no formato de coração para compensar o mofo. Mas, de quando em quando, o mofo pulsa. Quando ele percebe a chegada de quem mora nele, o mofo pulsa, enlouquecido. Um adolescente, claro, inconsequente. Eu também tenho um mofo no lugar do coração. Resultado de anos e anos de decepções. Depois de tanto crer em contos de fadas, o que ganhei foi o tal do mofo.

O mofo ainda acredita no que dizem os filmes, os livros, as músicas e os oráculos. Nestas bobagens que a gente se apega quando quer entender os sinais, que só a gente acredita e vê. O meu mofo, coitado, sabe que o amor não depende de beleza, idade, riqueza e status. Ele foi usado de todas as formas possíveis. Se encheu de vida e foi morto logo em seguida. Apostou no que diziam os pêndulos e os mais vendidos.

E o mofo tem um primeiro amor, um amor à primeira vista. É um daqueles amores que envolve indisponibilidade e, por este motivo, faz com que o mofo acredite que ele possa deixar de ser mofo. Ele acha que uma fada madrinha vai aparecer e transformá-lo naquilo que ele pode ser.

O mofo tem 30 anos e houve um tempo em que ele era um coração. Há muitos e muitos anos, em um reino distante, ele era vermelho, vibrante e batia sem medo. Nem de longe se parecia com o mofo cinzento e fraco de hoje. Abraçado nos seus temores, ele chegou à idade adulta. Já entende os foras muito antes deles serem dados. Ele pressente e foge. Faz de conta que é liberdade, mas sabe bem que é medo da dor. Ele sabe que vidas inteiras são baseadas em contos de fadas e que os contos habitam os livros para iludir, desde cedo, outros corações vermelhos, vibrantes e destemidos.

Como sua representante suprema, me sinto na obrigação de dizer ao mundo: ou você aguenta a realidade dura ou vira escritor. Mas que seja para contar a verdade, por favor. Tá bom, a verdade de uma forma mais bonitinha, mas ainda assim a verdade. Explica para os pequenos corações que não é legal querer ser herói e que o mofo vem, mais cedo ou mais tarde, nos peitos mais contentes. E se ele chegar, ou quando ele chegar, porque a questão é mesmo quando e não se, que esteja preparado.

Arrume algum bálsamo, alguma erva curadora, encha ele de sal, seja lá o que for. Pegue uma receita com uma velha curandeira, reze mil ave-marias, faça o que for preciso. Só não deixe o tal do mofo se instalar. Depois que ele se instala, não há cirurgia que resolva, nem transplante. E os mofos deformam os sorrisos e tiram aquele brilho bonito dos olhos e você nunca mais vai olhar para um menino da mesma forma. Vai dizer que todos são iguais e não vai entender por qual razão ainda procura tanto.

Na outra vida, vai nascer de armadura e não vai aceitar ursinhos de “estranhos”, porque sim, meninos são criaturas desconhecidas, com um brilho duvidoso no olhar. Eles te fazem chorar cantando músicas que você nem gostava e te fazem passar vergonha nos ônibus lotados. E só outra menina burra e apaixonada será capaz de decifrar aquele choro, tão específico. Os demais, principalmente as criaturas desconhecidas, permanecerão indiferentes, achando que meninas são mesmo assim, sensíveis demais.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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