fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Quando “eu” se transforma em “nós”

Um amor desinteressado, capaz de ver “nós” em um emaranhado de “eus”, carentes por atenção


IMG_27268672475557.jpeg

Não se sabe exatamente o momento mágico em que “eu” se transforma em “nós”. O que se tem são hipóteses, algumas luzes lançadas no escuro, alguns vislumbres do momento em que dois seres mudam de pessoa. O tempo que pode demorar para “eu” se transformar em “nós” é relativo. E também não é algo a ser esperado e sim que se deixa acontecer.

O que se sabe é que, em um belo dia de chuva ou de sol, no primeiro ou no último dia do ano, se decide que, daquele momento em diante, a primeira pessoa do singular deixa de ser a mais importante do mundo, dando lugar a primeira pessoa do plural. Assim, nascem os planos e os sonhos de uma casa no campo ou na cidade, de ter filhos que sejam a mistura perfeita de um amor desarrumado, de transformar casas em lares e enchê-los de cachorros peludos e gatos manhosos.

O momento exato, se pudesse ser fotografado ou filmado, deveria parecer com uma explosão colorida de mandalas, que emanam fluidos calorosos de todos os seis sentidos. Numa visão mais simplista, é o exato momento em que o amor aflora com a força que lhe dá toda a sua fama. Sim, porque o amor ganha sentido quando compartilhado. O amor por si mesmo pode te levar longe, mas o amor pelo outro é o que te torna eterno. O amor está no desejo de ser eterno, no ato de plantar uma árvore, de escrever um livro ou de ter um filho.

Existem em torno de sete bilhões de pessoas no mundo e nunca se sabe exatamente, mesmo para aqueles que lidam com astros e oráculos, quando o colo certo vai aparecer. Aquele, com a temperatura certa que contrasta com a sua, com um cheiro que combina com o seu, que você queira morar até o último dia de sua vida e em todas as suas vidas seguintes.

Você pode encontrar este colo em uma festa que você não queria ir ou em um site de relacionamentos, que você nem sabe o motivo de ter entrado. O importante é que todas as histórias de amor são dignas de serem contadas. E como existem histórias de amor para aqueles que sabem viver. Aos egoístas, aos cegos para as belezas simples do mundo, elas são menos acessíveis, mas não impossíveis.

Não existe receita, ingredientes secretos, apenas o amor pelo amor. Para receber é preciso dar amor, já dizia a sabedoria antiga. É só deixar o poder transformador do amor tomar conta e, pronto, o universo todo conspira a favor.Um amor desinteressado, capaz de ver “nós” em um emaranhado de “eus”, carentes por atenção.

dom-casmurro2.jpg


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
Saiba como escrever na obvious.
version 1/s/recortes// @destaque, @obvious //fabita