fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia

Urbana

O que virou o mundo em que ela nasceu? Um lugar que a comeria viva ao menor sinal de descuido


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Ela se viu em meio ao tumulto do centro da cidade e se identificou: seus pensamentos e sentimentos também se engarrafavam como os carros às seis da tarde em uma metrópole empoeirada. Devia ser alguma doença moderna e desconhecida, devia haver uma explicação para as checagens constantes no celular, para os relacionamentos de papel, para que o vazio nunca encontrasse um fim.

Olhou para uma placa de “Pare” e disse um NÃO mental bem alto para tudo aquilo. Respirou, olhou em volta e, de repente, estava em um apartamento, no último andar do prédio mais alto da cidade. Um lugar com decoração clean, branco, bege e cinza. Havia uma ou outra peça florida e grandes janelas de vidro. Depois de muito observar o apartamento, começou a olhar para fora dele.

Lá de cima, pôde perceber o imenso formigueiro de gente que se apresentava diante dos seus olhos. Pessoas acorrentadas as suas rotinas que, sem elas, se tornariam loucos de pedra, como alguns dos mendigos que conseguia visualizar do alto, implorando atenção como se as suas vidas dependessem do olhar do outro; pessoas agarradas em aparelhos de telefone, pessoas comendo com pressa, pessoas que não olhavam nos olhos, pessoas que não se deixavam apaixonar pela magia da cidade.

Suas agendas eram abarrotadas de convites para sexo casual, as conversas se transformavam em ruídos. Uma orquestra de diálogos pelo celular, buzinas e propagandas. No centro da cidade, algo pulsava diferente. Ela foi para outro lado do apartamento e viu o subúrbio, onde os carros saíam na mesma hora com destino ao trabalho, donas de casa se desesperavam com os detalhes, enquanto filhos e cães viviam na escassez da não-existência.

O subúrbio já não era mais o mesmo, mas, de certa forma, guardava a alma dos subúrbios, repletos de segredos. Olhos mais atentos poderiam ver muita dor atrás dos portões, dor intercalada com raros momentos de paz em dias ensolarados cheirando a chimarrão com pipoca.

Ela continuou olhando lá do alto e pôde perceber o movimento de carros de luxo indo para o bairro mais pobre da cidade. Lá, vícios eram sustentados, estratégias violentas eram usadas, dinheiro sujo corria pelas valas como o sangue de um animal indefeso, levado para o abate.

Ela percebeu que o dinheiro nunca era suficiente. Em todos os lugares, o dinheiro nunca era o bastante para preencher os vazios. O dinheiro rolava de mão em mão e, ao mesmo tempo em que parecia necessário, não comprava a felicidade efetiva.

Nas igrejas, a fé era vendida a preço de medo, o medo de não ir ao paraíso depois da morte. Nas escolas, ninguém mais se ouvia e não havia mais sombra de admiração. A biblioteca estava vazia, um ou outro idoso em busca de um romance barato. As locadoras fechavam as portas, humilhadas demais para admitirem a derrota entre o passado e o presente.

Uma guerra tecnológica, pincelada de nudes fáceis demais. Palavras falsas, promessas não cumpridas, abraços que aprisionam. O que virou o mundo em que ela nasceu? Um lugar que a comeria viva ao menor sinal de descuido.

Em algum lugar do passado sonhou com um futuro onde esperaria o marido em uma casa antiga e bem cuidada, onde havia uma jukebox na sala de estar e um imenso amor morando em todos os cômodos. No quintal, um poço com água limpa, ao lado de uma horta exuberante. Em frente, um jardim com flores de cores vivas. O cheiro era de saudade e de interior.

Continuou andando pelo apartamento tão alto até que, em algum canto escondido, encontrou uma imensa tecla. Ela era vermelha e nela estava escrito em branco algo que ela sonhava encontrar: reinício.

Por alguns minutos hesitou. Pensou no que aquilo iria dar, na ruína que poderia causar, nas mortes que poderiam acontecer. Depois lembrou da carta do Tarot, a Torre, e imaginou que sempre seria possível juntar os cacos e começar outra vez.

Quando apertou a tecla pôde ver claramente, ainda que rápido, elevadores se desintegrando, prédios virando poeira, estradas serem tomadas por árvores e eis que tudo começava de novo.

Acordou assustada, olhou pela janela do ônibus e viu que tinha acabado de chagar no terminal urbano. Era hora de descer e procurar o prédio mais alto da cidade para ver se encontrava alguma passagem secreta que a levasse para o tão sonhado recomeço de tudo que ela conhecia.


fabita

Jornalista, amante de literatura, cinema e filosofia.
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