humano demasiado humano

todas as expressões artísticas nos transformam em andarilhos humanos. (demasiado humano)

Fernanda Frota

Fernanda Frota é estudante de jornalismo, cintila a alma por cinema, vive ao pé da letra a sutileza do Manoel de Barros. Acredita na arte da entrega, acredita que as palavras são como fogo, acredita. Levaria Nietzsche, Godard e Woody Allen para jantar.

O ''espírito livre'' de Marina Abramovic

Marina Abramović iniciou sua carreira no início dos anos 70 e, desde então, é considerada pelos amantes da performance art como um ícone. Suas obras estão correlacionadas ao limite, autocontrole e não-objetificação do corpo-mente. O seu corpo é seu objeto de estudo e experimentação, não como algo simplesmente profano, mas sim como alinhamento entre a espiritualidade e consciência corpórea. Abramović usa da busca pela autonomia e limite corporal-mental como instrumento máximo.


tumblr_mfct2tdZwQ1r9q9zxo1_500.jpg Lips of Thomas by Marina Abramovic (1975)

Marina Abramović se cortou com facas, sentou diante do público ingerindo drogas psicoativas, gritou até perder a voz, dançou nua e encapuzada até sofrer um colapso, e isso é só um prelúdio do que Abramović já fez em nome da arte. Suas paixões, desilusões e alma estão severamente presentes na sua composição artística. Há quem diga que suas performances são mórbidas, levando em consideração o teor polêmico delas, mas, contudo, antes de diluir seu trabalho em mórbido versus não mórbido, temos que admirar seu grito e seu despudoramento a serviço da arte.

Todo mundo carrega consigo uma análise nas mangas sobre o que gosta, ao questionar sobre as cócegas de prazer que Marina Abramović me causava, concluí que é pelo motivo dela enaltecer suas próprias dores, e isso desaguar em um rio consistente. Abramović não tem medo da superexposição, pois quando o faz, o faz para si também. Não precisa ser um grande entendedor da arte performática para se emocionar com alguém corajoso usando o corpo como instrumento de trabalho, evidenciando sentimentos íntimos e fragilidades, como o amor e o desamor.

É quase impossível não se emocionar genuinamente com ''The Artist Is Present'' (A Artista Está Presente), obra que legenda o que supracitei. Abramović ficou por mais de 700 horas sentada, estática, com o único propósito de olhar nos olhos de quem sentasse diante dela. Pessoas dos mais diferentes trejeitos e sentimentos olharam em seus olhos, famosos (vide a cantora inglesa Björk) e pessoas desconhecidas se emocionaram. A conexão que emociona é a estima que se tem de si mesmo quando olha para alguém, você se enxerga no outro, e esse reconhecimento torna válido, em alguma medida, seu eu verdadeiro. A maioria dos participantes choraram, acredito que cada um tenha tido, dentro de si, um motivo particular, mas também acredito que uma coisa comum aconteceu ali. Talvez o ato instintivo de se enxergar no outro, e o outro em questão ser alguém de extrema sensibilidade e coragem, que desafia sua mente e corpo. tumblr_m91t2nBFb41qbo39mo1_1280.jpg The Artist is Present - From the Museum of Modern Art, NYC

Quando leio Nietzsche falando sobre o ''espírito livre'', não consigo deixar de buscar na memória a imagem da Abramović, não que uma coisa esteja verdadeiramente conectada com a outra, mas é impossível ler ''Humano, Demasiado Humano'' e não fazer, inconscientemente, uma breve conexão.

''Só agora é que ele se vê a si próprio e que surpresa encontra nisso! Que arrepios nunca experimentados! Que felicidade mesmo no cansaço, na antiga doença, nas recaídas de convalescente! Como lhe agrada ficar tranquilamente sentado com sua dor, desfiando paciência, deitado ao sol! Quem entende como ele a felicidade do inverno, as manchas de sol na parede! Esses convalescentes, outra vez meio voltados para a vida, esses lagartos são os animais mais agradecidos do mundo e também os mais modestos. Há alguns entre eles que não deixam passar um dia sem pendurar um pequeno cântico de louvor na orla da veste que se arrasta. Falando a sério: é uma cura radical contra todo o pessimismo (câncer, como se sabe dos velhos idealistas e dos heróis de mentira) adoecer à maneira desses espíritos livres, ficar doente um bom tempo e depois, ainda mais devagar, ainda mais devagar, ficar bom, quero dizer, “ficar melhor” de saúde. Há sabedoria nisso, sabedoria de vida em receitar a si próprio durante muito tempo a saúde em pequenas doses.'' (Humano, Demasiado Humano – Nietzsche - Página 24-25)

O espírito livre de Nietzsche me desperta a mesma excitação mental que Abramović, ela exalta o livre pensar e o livre existir em suas obras, uma libertação da tradição (vide sua história com seus pais), com a felicidade e com o fracasso (vide a história de amor com Ulay, seu parceiro performático). O espírito livre de Nietzsche vive em busca da verdade, da sua própria verdade. Marina Abramović exercita isso - a busca pelo seu pensar genuíno - enfrentando suas dores e cóleras, para, posteriormente, refletir em toda verdade presente em sua arte. O espírito livre de Abramović penetra nela mesma, como diria Nietzsche: ''pressionando em todas as direções, quase sem medo, não desdenhando nada, não perdendo nada, saboreando tudo, purificando todas as coisas...''

Essa compilação de similaridades pode ser apenas um devaneio de alguém que admira o destemor e a intrepidez de outro alguém - que coloca o desmembramento da sua existência como parte fundamental da vida e da arte. Em última análise (com caráter valorativo) concluo que, Marina Abramović, faz da vida um ato de coragem, por ser um espírito livre, sendo o mesmo espírito livre reconhecido por Nietzsche ou não.


Fernanda Frota

Fernanda Frota é estudante de jornalismo, cintila a alma por cinema, vive ao pé da letra a sutileza do Manoel de Barros. Acredita na arte da entrega, acredita que as palavras são como fogo, acredita. Levaria Nietzsche, Godard e Woody Allen para jantar. .
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