humano demasiado humano

todas as expressões artísticas nos transformam em andarilhos humanos. (demasiado humano)

Fernanda Frota

Fernanda Frota é estudante de jornalismo, cintila a alma por cinema, vive ao pé da letra a sutileza do Manoel de Barros. Acredita na arte da entrega, acredita que as palavras são como fogo, acredita. Levaria Nietzsche, Godard e Woody Allen para jantar.

Todo mundo tem um lado Woody Allen.

Falar do Woody Allen é pensar no sentido da vida e na ressignificação da morte. É passear pelas ramificações mais inacessíveis da psique. Woody Allen é um homem muito apegado ao cotidiano, com uma boa dose analítica, ele reconhece o que é necessário para um homem ficar de pé nesse mundo caótico, onde todo pedaço de matéria e cada totalidade do universo interfere diretamente na nossa vida.


woody-allen-620x350.jpg

Bombardeando-nos com piadas e questões dramáticas que convivem concomitantemente, pode-se dizer que tem muito do cotidiano em seus filmes, sobretudo nova-iorquinos, um cotidiano coberto por uma camada grossa de poeira. Ele retalha o dia a dia como ninguém, ora enxergando tudo como autossabotagem, ora colocando a culpa nas armações da vida, mas sempre atônito diante de uma ebulição de questões.

Woody é uma junção do ar etéreo e sombrio do diretor Ingmar Bergman, com ar cômico-até-o-último-momento do comediante Groucho Marx. A que me refiro? A melhor maneira de levar a vida, reconhecer uma nuvem negra de problemas, mas lidar irônica e comicamente com isso. Opino, mas pedindo toda licença à capacidade majestosa do Woody de falar sobre assuntos existenciais: Todos nós vivemos em um mundo tragicômico, então, cabe a nós reconhecer em que nível fica a tragédia e em que nível fica a comédia.

Nova Iorque ilustra bem essa conexão humana presente em seus filmes. Nela tudo acontece. É a cidade que borbulha todo tipo de cheiro, gosto, experiências, direções, gestos. Nova Iorque é a janela que se abre para a alma do Woody, uma cidade pulsante que serve de portal para uma alma tão pulsante quanto.

Acho que esta cidade ilustra bem a vida em geral, não só a vida “set de filmagem” de seus filmes. Não seria uma metáfora exagerada comparar a cidade-que-não-dorme com a nossa vida. Nossa vida nunca para, os ritmos só aceleram, cabe a nós acompanhar o timing ou não, ainda que isso seja quase uma imposição do mundo pós-moderno.

É um tanto arrogante tentar dissecar um diretor tão cheio de referências, pois é quase impossível sintetizar sua genialidade. Confesso que isso faz com que meu cérebro dê saltos-mortais. Não existe uma fórmula “woodyallenesca” de enxergar as coisas, mas é clarividente que os personagens excêntricos do Woody são reflexos de características existentes em cada um de nós. Assim, de um jeito bem humanizado, pouco vergonhoso, descarado, de alguém que lida com sua loucura sem se importar e não sair correndo, com medo, em direção à saída, no momento que se começa a questionar algo.

Woody e seus personagens são questionadores, em sua maioria, carrancudos que enxergam a vida por um viés psicológico (e, por vezes, psicossomático). Eles sentem a vida em sintomas, por mais redundante que isso possa parecer. Um personagem bem característico é o Boris Yellnikoff, interpretado por Larry David no filme “Tudo pode dar certo” (Whatever Works). Este filme pauta a vida de um neurótico e sua visão satírica e mal humorada sobre a desordem das coisas.

Os diálogos são seu ponto forte. Woody consegue fazer um diálogo, que seria desgastante e monótono, ser a poção mágica para uma revolução intelectual. É um diretor que brinca com o bad moment da vida como quem brinca de jogar pôquer.

Consigo imaginar um personagem intelectual frustrado, altamente neurótico, desajustado, provavelmente infiel, de poucos amigos, jogando pôquer em um dia de lazer programado e mecânico, ouvindo as batidas sincopadas de um jazz, em uma noite nova-iorquina agitada, acatando com conformismo as imposições da sua cruel existência, mas muito consciente do porquê de tudo. Consigo imaginar isso sendo uma criação legítima do Woody.

Talvez a “paixão de adolescente” do Woody por Nova Iorque seja puramente isso, em meio ao caos, ao caos desconhecido de uma metrópole, ele consegue evidenciar seu próprio caos e fazer do mundo de seus personagens uma desgraça muito maior que qualquer outra. A ironia com que trata os problemas é a dose necessária para transformar um assunto denso, altamente problemático e psicanalítico, em um momento de interpretação individual e interiorização.

Assistir aos seus filmes é estudar o conhecimento e seu valor quanto ao ser humano. Seus filmes tratam disto, desse estudo aprofundado do intelecto aplicado na vida e no cotidiano. Woody Allen, um filósofo no corpo de um judeu franzino, teórico e prático na mesma proporção, que questiona até o ato de questionar, que duvida da própria dúvida e termina dizendo que o problema do mundo é seu umbigo. Termino considerando que Woody domina a arte da intelecção. Woody Allen é melhor que um divã? Diria eu que sim. Todo mundo tem uma Nova Iorque dentro de si? Diria Woody Allen que sim.

(via Literatortura)


Fernanda Frota

Fernanda Frota é estudante de jornalismo, cintila a alma por cinema, vive ao pé da letra a sutileza do Manoel de Barros. Acredita na arte da entrega, acredita que as palavras são como fogo, acredita. Levaria Nietzsche, Godard e Woody Allen para jantar. .
Saiba como escrever na obvious.

deixe o seu comentário

Os comentários a este artigo são da exclusiva responsabilidade dos seus autores e não veiculam a opinião do autor do artigo sobre as matérias em questão.

comments powered by Disqus
version 1/s/// @destaque, @obvious //Fernanda Frota