Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/

A eternidade de Wilson Bueno

Quatro anos passados da morte do escritor Wilson Bueno e o seu caso continua sem solução na justiça. Brutalmente assassinado em maio de 2010, o paranaense deixou sua marca na literatura brasileira contemporânea, destacando-se pelo experimentalismo da linguagem e, nas palavras de Paulo Leminski, pela "alta voltagem metafórica e imagética" de sua prosa-poética.


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Noite sem fim, para familiares, amigos e admiradores de Wilson Bueno, aquela de 31 de maio de 2010. Brutalmente assassinado, o escritor foi encontrado em sua residência, no bairro Tingui, Curitiba, com as marcas do golpe de faca no pescoço. O acusado: Cleverson Schimidt, garoto de programa que, à época, confessou a autoria do crime. Prestes a completar quatro anos, o caso continua sem solução. Terça-feira, primeiro de abril de 2014, o acusado foi absolvido por júri popular. Em sua defesa, questionamentos e suspeitas relacionadas ao inquérito, à investigação da polícia e ao trabalho do primeiro advogado de defesa, que seria, supostamente, amigo íntimo do escritor. Para Mauricio Zampieri Freitas, advogado de Cleverson, o acusado teria sido induzido a confessar o crime, sob efeito de tortura. Frente a um julgamento confuso, com resultado questionável, fica a pergunta e o assombro: quem o responsável pela morte do escritor?

Com a perplexidade da família e o descompasso entre perguntas e respostas, naquele mesmo primeiro de abril de 2014, dia da mentira e também da absolvição, o promotor do Ministério Público do Paraná pediu que o caso fosse julgado outra vez. Indício de que a novela da vida e da morte de Wilson Bueno ainda não terminou e que terá novos capítulos. Drama obscuro, permeado de enigmas, silêncios e vazios que, ao mesmo tempo, escondem e revelam sobre o crime, o episódio da morte do escritor, não fosse o choque de sua realidade incontornável, poderia ser tomado como o mote de um dos tantos romances que Bueno publicou. Ao que tudo indica, esta a tarefa dos biógrafos que, no futuro, um dia se debruçarão sobre a vida do autor: aprender sobre a ambiguidade e a complexidade da linguagem, que é também a ambiguidade e a complexidade da vida, para poder reinventar a sua história. Para isso, deixou Wilson Bueno o seu legado de escritor. Saibamos nós, os que ficaram, dividir esta herança singular, que se distingue pelo paradoxo: quanto mais se compartilha, mais se ganha e maior é o valor.

Literatura sem fronteiras

Seja com a prosa limpa e precisa do jornalismo, das crônicas e contos, seja com a linguagem poética e inventiva de Meu tio Roseno, a cavalo, ou ainda com o portunhol atravessado pelo guarani de Mar Paraguayo, Wilson Bueno se destacou, no panorama literário do Brasil contemporâneo, por um intenso caso com a palavra em sua produção literária. Escritor inquieto, no momento mesmo em que parecia cristalizar o seu organismo de linguagem, encontrando um estilo para chamar de seu, seguia-se logo um rearranjo, de modo que cada novo título era também um novo Wilson Bueno pronto para, articulando uma nova sintaxe e um novo vocabulário na sua poética contrabandista, provocar e surpreender mais uma vez o seu leitor. E de que modo entender o movimento permanente de reinvenção da sua literatura?

Precocemente iniciado no jornalismo curitibano, o escritor, nascido em Jaguapitã (1949), interior do Paraná, começou sua carreira com apenas 14 anos, escrevendo para o jornal Gazeta do Povo. Desde cedo, portanto, o exercício da escrita tomou parte importante em sua vida. O trabalho de jornalista – que, sob formas variadas, o acompanhou pelo resto da vida – foi, também, um trampolim para a atividade literária. Quando, no ano de 1987, Wilson Bueno se tornou o editor-chefe do premiado jornal literário O Nicolau, publicado pela Secretaria de Cultura do Estado do Paraná, pouco se conhecia, Brasil afora, de sua literatura. Sua estreia editorial ocorrera no ano anterior, 1986, com a coletânea de contos Bolero's Bar. Aos poucos, a coleção de prêmios e o reconhecimento obtido pelo jornal, considerado um dos melhores e mais importantes veículos culturais do país, renderam a Bueno uma posição de destaque. Contudo, a projeção de seu nome no cenário da literatura brasileira e latino-americana se consolidou, efetivamente, apenas na década seguinte.

Flertando, em diversos momentos, com o experimentalismo do neobarroco, Wilson Bueno despontou no cenário nacional e internacional com Mar Paraguayo, prosa híbrida que, mesclando o português, espanhol e guarani, desestabiliza fronteiras linguísticas, literárias e culturais. Publicada em 1992, foi, sobretudo, a partir de tal obra que o escritor se fez conhecer, de modo mais acentuado, fora do meio literário da capital paranaense, ainda que sua presença e liderança no jornal literário O Nicolau já lhe rendesse prestígio no mundo das letras. Chamando as atenções, dentro e fora do Brasil, pela linguagem transgressiva do experimento poético, o livro, prefaciado pelo escritor argentino Néstor Perlongher, foi publicado em diversos países de fala hispânica, fazendo de seu autor uma presença, mais tarde, em importantes antologias latino-americanas sobre a literatura contemporânea, representando a produção literária brasileira ao lado de escritores como Paulo Leminski e Haroldo de Campos.

E, de fato, experimental parece ser o termo adequado para tratar da produção literária de Bueno. Ao longo dos anos, o escritor se aventurou por inusitados caminhos da linguagem literária, seja por meio de formas poéticas orientais, como em Pequeno Tratado de Brinquedos, pela mescla e pela transgressão de fronteiras linguísticas, como em Meu Tio Roseno, a Cavalo, seja ainda por meio das fábulas desmoralizantes de Cachorros do Céu, anedotas sobre a vida na “selva” que fizeram Ivo Barroso considerar um novo livro de Wilson Bueno como uma “insuspeitada experiência”, em que, abrindo-lhe a capa, pode sair tanto o “jogral espevitado que nos vem de encontro às fuças ou o perfeito peralvilho de luvas e polainas, que nos faz um gesto cortesão tocando a aba do chapéu”.

Na literatura de Wilson Bueno, tudo se revela nas entrelinhas. E, simultaneamente, tudo se esconde, como o crustáceo desprotegido, caminhante da areia que, no justo momento em que se pega observado, corre veloz para um dos muitos buracos que cavou ao longo da praia. Mesmo ali, onde mais pareceu nos dar as pistas de seu próprio paradeiro, também Wilson Bueno se esquivava por entre os sons desta língua portuguesa que tanto amou. Livro póstumo, publicado logo após a morte do autor, Mano, a Noite Está Velha é, dentre a vasta obra de Bueno, seu romance com maior apelo autobiográfico, ainda que não constitua autobiografia pura. E poderia ser diferente com um escritor que, poeta em verso e prosa, a rigor, nunca foi puro em nada que fez? Ele que sempre manchado de sangue e excremento, ele com rasgos e fissuras, tingido pela vergonha, pelo medo, pela dor, poderia ele também ser puro?

Assim, ao sair de seu último livro, o leitor carrega ainda a mesma perplexidade e desorientação com que entrou, já nocauteado pelo teor de sua poesia de contrabando. E guardamos a dúvida de quem foi esse que nos surpreende sempre mais. Wilson Bueno, mas qual? Ao fim das contas, fechadas de modo um tanto visionário (profeta barroco!) pelo autor em seu último romance – longa carta que um narrador sexagenário escreve ao falecido irmão – a pureza de Wilson Bueno se mostra justamente em tudo aquilo que, no início da jornada, nos parecia mais sujo: sua indefinição de língua, de tempo, de gênero, sua obsessiva vontade de viver e criar, de existir e fazer da existência o seu experimento.

Joca Reiners Terron, em artigo de setembro de 2011 no Cândido, dizia que a perda de Wilson ainda não havia sido de todo assimilada pelo nosso meio cultural. Dois anos condensados num piscar de olhos, e hoje assimilamos menos ainda. Sua ausência continua nos chamando nos jornais e noticiários, brotando inflamada das páginas policiais. Pelo que ficou em aberto, há que se lembrar de sua morte. Mas, antes, é preciso relembrar aquilo que foi a vida pulsando no coração do escritor. Falar de sua obra é, ainda e cada vez mais, a melhor forma de não esquecê-lo. Para aqueles que, quatro anos passados de sua partida, ainda não puderam sair da noite que ficou pelo meio, resta a esperança de que o amanhã, cumprindo a promessa de nascer um novo dia, não deixe que a morte de Wilson Bueno seja mais uma destas, como tantas em nosso país, esquecidas com o tempo pelo vagar da justiça.

Impossível fugir da passagem do tempo, da impressão de suas marcas. O ser humano, com tudo que um dia foi brilho e glória dentro de si, passou em Wilson Bueno, assim como, um dia, passará em cada um de nós. Sua morte, esperamos, também um dia será passado, quando a mágoa e o ressentimento forem apenas uma lembrança distante. E quando findar a noite sem fim do dia 31 de maio de 2010, então os familiares, os amigos e os admiradores do escritor poderão dizer, “descanse em paz, Wilson Bueno”, e depois descansar também, pois tudo que era vida e morte se foi, deixando apenas aquilo que o tempo, agressor impiedoso, não conseguiu desmanchar. A herança do artista para o mundo, sua obra, sua eternidade.


Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/.
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