Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/

Uma viagem sem volta: o viciante Mastodon

Uma anti-resenha do disco Once More ‘Round the Sun, ou De como os norte-americanos do Mastodon me provocaram uma terrível recaída.


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Tenho saudade das lojas de CD. Nas cidades do interior, raro encontrar uma dessas hoje em dia. Estão acopladas, as que resistiram ao mp3, em lojas de departamentos e grandes livrarias – isto se a cidade em questão não for pequena demais, que aí é que não sobra nada mesmo. Como sou nada polivalente, quando vou à livraria, dessas que não vendem apenas livros, preciso me decidir: que quero ver hoje? Quando entro com a cabeça na literatura, passo despercebido, ou nem passo, pelos disquinhos fora de moda, que parecem hoje ser somente mais um item para colecionador. Acontece que, quando um som realmente me arrebata, confesso que ainda recorro aos CD’s. É que, para mim, ouvir música no PC não tem o mesmo sabor: logo me distraio com as baboseiras da internet, sem dar a devida atenção que a trilha sonora merecia. Sou um cara que necessita dos rituais. Mas, mesmo sendo um saudosista, a frequência com que adquiro os álbuns que me atraem já não é, nem de longe, a mesma.

Penso que, com a idade, a gente vai criando calo pra tudo. Quando mais novo, eu realmente me emocionava com as coisas. Assim com Stairway to Heaven, que se tornou, depois daquela tarde em que escutei com atenção seus oito minutos de pura perfeição sonora – um dos picos criativos da história do rock –, para todo o sempre a minha música preferida. Assim também com os discos do Pink Floyd, dos Stones, com a descoberta da psicodelia. Assim com várias pérolas que, felizmente, estavam à minha espera pelo caminho da vida. Agora, que continuo jovem, mas já formado no gosto, parece que nada mais me soa como novidade. Envelheci os ouvidos e, sem que tivesse consciência disso, o conservadorismo tão comum da velhice tomou de assalto o meu repertório musical. Difícil, essa arte de se renovar eternamente.

Afeito às emoções musicais, devo dizer que muito me emocionei também com os clássicos do Heavy Metal. Mal sabem os meus amigos de pouca data que, algum tempo atrás, nos idos da adolescência, com os cabelos compridos, calça ajustada e coletinho jeans, fui metaleiro. É, metaleiro mesmo, ou, para usar o termo técnico, tive meu tempo de headbanger. Esse pessoal desinformado também não sabe que toquei guitarra em uma banda de thrash metal que existe ainda, com outro nome e outra formação, e está na ativa, fazendo um som autoral de altíssima qualidade lá para as bandas do planalto norte de Santa Catarina. Mas depois disso, distanciando-me dos estereótipos do estilo, passei a usar camisa pólo e acho que virei coxinha. Mas só até a última semana, quando as coisas desmudaram outra vez.

Afastado da comunidade headbanger (sim, ela existe), nunca deixei de curtir minhas bandas pesadas do coração. Desde que, aos doze ou treze anos, tomei nas mãos aquele que era, à época, o último disco dos ingleses do Iron Maiden, nunca mais deixei de amar este afluente caricato, excêntrico e barulhento do rock n’ roll. Sempre associei, por algum motivo que me escapa, as guitarras distorcidas e as velozes levadas de bateria do Metal com um processo de empoderamento do mundo. Mas de lá pra cá, mesmo curtindo e recurtindo os clássicos do estilo, nunca mais me deixei ser levado bruscamente para alto mar por qualquer coisa que recebesse este rótulo musical que, por vezes, injustiçado, recebe o desprezo de muitos, ao mesmo tempo em que é venerado por tantos outros.

Na última semana, entrei na livraria (que é também loja de discos), esquivei-me dos atendentes e revirei atentamente, recluso na minha intimidade com o passado, a velha e boa seção de rock pesado. Encontrei o último álbum da banda norte-americana Mastodon, Once More ‘Round the Sun. Eu conhecia algumas coisas da banda, mas não podia me dizer um fã. Familiarizado o bastante, no entanto, para, com firmeza, levar o CD ao caixa, ansioso pela primeira audição. Entrei no carro, introduzi o disquinho e esperei alguns minutos. Com um sorriso no rosto, dei a partida. Eu sentia que, naquele momento, estava fazendo um caminho sem volta.

Enquanto me deliciava com o som exato e potente da banda – uma maravilhosa mescla de tudo que de melhor se fez na história do Heavy Metal e do rock pesado – lembrei-me que, tarefa do dia, eu deveria fazer as compras do mês. Quando cheguei ao estacionamento do mercado, não consegui apertar no botãozinho do off. Eu estava completamente entregue ao som do Mastodon. Em completa e fulminante catarse, eu ria, gargalhava de verdade e sozinho no carro desligado, enquanto os funcionários do mercado me observavam como quem diz: está louco, o homem. Eu não podia desligar o rádio e, a cada giro que o disco dava no meu cd player, eu ficava mais próximo daquelas tardes de sábado em que, com os dedos calejados pela minha velha guitarra de guerra, eu lamentava cada segundo que se passava nos ensaios da minha antiga banda de heavy metal, pois sabia que estava chegando mais perto do fim, que estava retornando ao cinismo resignado da realidade. Eu não queria que o barulho se acabasse.

Mas tudo, uma hora, termina. Quando a última música do álbum parou de tocar, pude sair do carro e, aliviado da vida e dos dias, fazer o mercado. Quando retornei com as compras, sem bateria, a caranga já nem pegava mais. Peguei meu Once More ‘Round the Sun novinho em folha e, com a cabeça naquele puta-solo-de-guitarra da segunda faixa, voltei pra casa a pé, com vontade de contar pra todo mundo que, enfim, eu recaí. Graças aos caras do Mastodon, fui metaleiro – e feliz, de uma felicidade que nunca havia sentido depois do meu processo de desintoxicação do rock pesado – mais uma vez. Acho que o vício está voltando. Quero acreditar, só por hoje, que sim.


Marco Aurélio de Souza

Marco Aurélio de Souza vive em Ponta Grossa (PR) e é formado em História e Linguagem. Publicou os romances O Intruso (2013) e Conexões Perigosas (2014). Também escreve no blog: http://escritaforadesi.tumblr.com/.
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